Walter Dean e Elizabeth Saad foram os principais oradores do primeiro dia da sexta edição do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo, que se realiza na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e termina amanhã (sexta feira).

O jornalista norte-americano Walter Dean abriu o painel de conferências do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo (#6COBCIBER). O antigo editor da CBS veio ao Porto falar da forma como a errónea análise de públicos e audiências veio condicionar o trabalho jornalístico. Walter partiu do estudo que realizou em co-autoria com outros jornalistas  em 2007, “We Interrupt This Newscast: How to Improve Local News and Win Ratings”. O jornalista e professor abordou as conclusões daquela que é considerada a análise mais detalhada aos meios de comunicação televisivos regionais americanos.

Walter Dean alertou para os resultados que mostraram a preferência do público por conteúdos jornalísticos aprofundados de qualidade e com fontes que apresentem diferentes pontos de vista, ao contrário do que é apresentado por uma boa parte dos órgãos de comunicação.

Walter Dean (Foto: José Volta e Pinto)

Walter realçou as falhas que os métodos de análise de públicos e audiências evidenciam e abordou a preponderância da Internet no processo jornalístico, que considera ter perdido autonomia na parte da distribuição da informação. A Internet trouxe uma urgência no meio jornalístico, em que cada meio procura noticiar da forma mais imediata possível, pondo em risco a verdade. Walter Dean entende ser necessário optar por um de dois propósitos: a rapidez ou a verdade. O professor não nega o valor que há em ser rápido, mas apenas quando é importante e sem pôr em causa o rigor, que necessita de verificação e cruzamento de fontes.

Antes e depois do intervalo de almoço houve espaço para algumas sessões paralelas, uma delas acompanhada pelo Preto no Branco.

Elizabeth Saad Corrêa foi a oradora da conferência da tarde. Apresentou o “Cenário das Iniciativas a Combate à Desinformação no Brasil: o marco das eleições 2018”. A professora da Universidade de São Paulo apresentou um estudo que incidiu sobre a propagação da desinformação no Brasil e seus motivos. Elizabeth admite que, do lado de quem consome as notícias, o nível de escolarização brasileiro é um fator importante e que a desinformação é uma componente recorrente na história brasileira. Do outro lado do espectro, também defende uma análise e interpretação da forma como o modelo de negócio e o contexto económico de um órgão de comunicação social (OCS) influenciam a disseminação das fake news.

Elizabeth defende o debunking  (o desmentido da informação incorreta) para combater a desinformação recorrente no círculo social brasileiro. Numa altura em que a população consome a grande maioria das notícias pelas redes sociais (principalmente pelo Whatsapp, no caso brasileiro), esta prática é importante, e fulcral para o futuro do jornalismo. A professora defende a necessidade de haver um esforço conjunto por parte dos OCS em criar um hábito de desmascarar as notícias falsas, e entende que debunking, “um processo ainda em transição e compreensão”, precisa de ser integrado na formação jornalística: “Quanto mais esclarecimentos, menos problemas de desinformação se vão verificar.”

Elizabeth Saad Corrêa (Foto: Carolina Ribeiro)

Debate sobre as ameaças ao ciberjornalismo

Após a conferência da jornalista brasileira Elizabeth Saad Corrêa, o programa continuou com um debate sobre as ameaças ao ciberjornalismo. Fernando Zamith, um dos membros da Comissão Organizadora, revelou antes da discussão que o Observatório de Ciberjornalismo conseguiu financiamento para uma publicação em papel dos melhores artigos submetidos durante o #6COBCIBER, para além da versão digital que é lançada em todas as edições. Na mesa estavam Miguel Soares (editor-coordenador para as redes sociais da Antena 1), Pedro Miguel Santos (diretor do Fumaça), Sérgio Sousa (diretor do V Digital ), Sofia Branco (presidente do Sindicato dos Jornalistas), prontos a discutir o tema e Luís A. Santos (professor na Universidade do Minho) a moderar a conversa.

Falta de tempo, contraprodução gerada pelo modo frenético como se produz notícias, financiamento e precariedade foram as respostas à pergunta de partida. Daqui seguiu-se para aquela que se tornou a questão mais discutida durante o debate: como é que o jornalismo se tem vindo a sustentar e como pode/deve fazê-lo no futuro. Para Sofia Branco, cabe ao Estado o papel de assegurar bom jornalismo, visto que é uma atividade que é, unanimemente, considerada um bem público. Luis A. Santos acrescentou ainda que “a partir do momento que o jornalismo aceita que é um bem público, abre espaço para um financiamento público”. A presidente do SDJ alertou também para a responsabilização das multinacionais, como a Google ou o Facebook.

Mesa de debate (Foto: Carolina Ribeiro)

Sérgio Sousa na sua vez disse que a discussão não adiantava de muito quando feita a nível local, visto que a Google tinha já dado uns “dinheiritos” para projetos portugueses, mas que é muito difícil negociar e hoje já se percebeu que estas empresas seriam fundamentais para financiamento. O diretor do V Digital sublinhou que é necessário criar condições especiais, porque o jornalismo é um negócio especial.

Miguel Soares explicou que neste momento já está a ser discutida uma taxa/imposto para a Google distribuir a nível europeu pelos meios tradicionais de informação. Porém, o jornalista relembrou que é necessário estar consciente de que o modo como se consome notícias ter mudado radicalmente nos últimos anos: “as pessoas já não vão diretamente aos sites noticiosos agora. As pessoas pesquisam a informação e não lhes interessa de onde aparece desde que vão ter onde querem”. 

Mas para Pedro Miguel Santos e o resto da equipa do Fumaça, a maior preocupação é a prática de um jornalismo transparente e isento – “Mais do que uma suposta isenção em que nós não acreditamos, é preciso transparência e que quem nos lê sabe onde andamos, o que fizemos, etc. O cumprimento do código deontológico”, referiu o jornalista.

A discussão foi acesa num debate em que foram abordadas muitas questões do jornalismo atual. No final, a audiência teve a oportunidade de fazer perguntas à mesa de debate sobre o panorama geral daquilo que é a atividade jornalística atualmente e sobre opiniões que tinham sido debatidas.

A entrega dos Prémios de Ciberjornalismo 2018 encerrou o primeiro dia do #6COBCIBER , que retoma as conferências amanhã (sexta feira) de manhã.