Há séculos que o 31 de outubro é sinónimo do paranormal. Quando o sol se põe e a noite cai, crianças e adultos vagueiam de porta em porta, reúnem-se a ver filmes de terror e mascaram-se dos mais diversos seres aterradores. O Preto no Branco dá-te uma lição de História sobre esta festividade internacional e como se expandiu para Portugal.

Fotos: Pedro Valente Lima
A História por detrás das histórias
Há dois mil anos atrás, os povos celtas que habitavam a europa festejavam o final do verão com o “Samhain”. Esta celebração, cujo nome significa “fim do verão”, marcava também o início de um novo ano celta. Durante a festividade prestava-se o culto aos mortos. Reza a lenda que os espíritos dos mortos regressavam ao mundo dos vivos para visitar as suas casas e guiar os familiares para o outro mundo.
No século VII, o Papa Bonifácio IV transformou um templo romano pagão num templo cristão, dedicando-o a “Todos os Santos”. A festividade para celebrar o Dia de Todos os Santos (em inglês “All Hallow’s Day”) tinha lugar no dia 13 de maio. Mais de um século depois, o Papa Gregório III foi responsável pela mudança de data, passando para 1 de novembro. Em 840, o Papa Gregório IV ordenou que o Dia de Todos os Santos passasse a ser celebrado universalmente.
O nome Halloween surge do nome inglês do feriado. “All Hallow’s Eve” pode-se traduzir para “Véspera do Dia de Todos os Santos”. Com o passar do tempo, o nome foi-se contraindo até dar origem ao clássico “Halloween”.
A travessia do Atlântico
A tradição celta de celebrar o “Samhain” passou de geração em geração. Todos os anos, na véspera do Dia de Todos os Santos, o povo irlandês cumpre a tradição celta e celebra a festividade.

Temidas durante séculos, as Bruxas marcam presença.
Em 1840, o Halloween alcança a sua nova casa – os Estados Unidos da América. Com uma vaga de fome a assombrar a Irlanda, o povo irlandês atravessou o Atlântico em busca de melhores condições de vida. Na mala traziam as tradições europeias, entre elas a celebração do Halloween. A América acolheu o Halloween como nenhuma outra nação, renovando as tradições e contribuindo para a inclusão de muitos símbolos que hoje não conseguimos desassociar do feriado.
Podem não ser o berço do Halloween, mas os Estados Unidos da América são os responsáveis pela sua expansão pelo mundo. Através de filmes, séries, livros e múltiplas outras formas, celebrar a noite mais assustadora do ano tornou-se algo comum à escala mundial.
Um símbolo vale mais que mil palavras
Abóboras (Jack O’Lantern):
Quando se pensa em Halloween, a primeira imagem a vir à cabeça é quase de certeza a imagem de uma abóbora esculpida e iluminada. A abóbora, conhecida em inglês por “Jack O’Lantern”, é o símbolo mais reconhecível do Halloween e a sua história remonta a uma velha lenda irlandesa.
Segundo a lenda, havia um homem chamado Stingy Jack que convidou o Diabo para beber com ele. Como não queria pagar pela bebida, Jack convenceu o Diabo a transformar-se numa moeda para o ajudar a pagar a conta. O Diabo assim o fez, mas Jack guardou a moeda no bolso junto duma cruz prateada e saiu sem pagar a conta. A cruz impedia o Diabo de regressar à sua forma original. Em troca da liberdade, o Diabo aceita o acordo proposto por Jack – que não iria procurar vingança e que quando Jack morresse a sua alma não iria para o Inferno.
Eventualmente, o Diabo decide regressar para se vingar. Mais uma vez, Jack conseguiu passar a perna ao demónio – convenceu-o a subir a uma árvore para ir buscar fruta e depois desenhou uma cruz no tronco da árvore para impedir o Diabo de descer. O Diabo voltou a ceder ao acordo de Jack, prometendo não se vingar e não colher a sua alma. Quando Jack morreu, Deus não permitiu a sua entrada no Céu devido à sua vida de manipulação e alcoolismo. O Diabo, cumprindo a sua promessa, também não o deixou entrar no Inferno. Jack viu-se então obrigado a caminhar eternamente pela noite à procura do seu próprio Inferno. Nas mãos leva um nabo cortado com uma lanterna no interior para iluminar o caminho.
Na Irlanda, sempre que se viam luzes à noite, dizia-se ser a lanterna de Jack. Foi assim que o nome de “Jack O’Lantern” nasceu. A história pegou e o povo irlandês começou a usar nabos e outros vegetais para esculpir e colocar lá dentro lanternas, a fim de assustar os caminhantes noturnos.

A tradição celta perdura nos nossos dias.
A adoção da abóbora surgiu em solo americano. Quando os emigrantes irlandeses chegaram à América, depararam-se com a abundância deste fruto. Porém, a tradição de cortar as abóboras não foi exclusiva do Halloween – já fazia parte das festividades provenientes da época das colheitas. No século XIX, começaram a ser usadas como decorações de Halloween, sendo colocadas à porta de casa pelos cidadãos mais supersticiosos com o intuito de espantar os espíritos malignos.
Doçura ou Travessura:
A origem do icónico “Doçura ou Travessura?” remonta à europa da Idade Média. Algumas crianças iam de porta em porta, pedindo esmola em troca de uma oração pelos mortos. Ao longo dos anos, a atividade foi-se moldando. Agora, crianças batem às portas da vizinhança a pedir doces. Aqueles que se recusam a dar doces, sofrem as consequências de uma travessura. As mais clássicas partidas passam por cobrir a casa do “mau vizinho” de ovos ou papel higiénico ou ainda tocar à campainha e fugir.
Máscaras:
A tradição de se mascarar é a tradição mais antiga do Halloween. Durante as festividades do “Samhain”, o povo celta mascarava-se com o intuito de enganar os mortos, fazendo-os pensar que eles estavam mortos também. Com o passar dos anos, as ruas na noite de Halloween encheram-se de vampiros, lobisomens, bruxas, fantasmas e outros monstros. Mais recentemente, o Halloween tem-se vindo a tornar num Carnaval 2.0. Entre os monstros, pela rua caminham agora também médicos, polícias, ninjas, super-heróis,… Qualquer fato é aceite desde que quem o veste entre no espírito.
Mas o Halloween não fica por aqui. São muitos os símbolos que dão vida a esta noite:
- Cores Laranja e Preto – São cores representativas da estação do outono. O preto, em específico, serve de alusão à noite e ao encurtamento dos dias.
- Bruxas – Na idade média, milhares de mulheres foram perseguidas por serem acusadas de ter feito um “acordo com o Diabo”. Apelidadas de bruxas, rapidamente se tornaram num símbolo do Halloween e numa das principais escolhas para máscara da noite.
- Animais Noturnos – Mochos, morcegos e outros seres da noite são geralmente associados ao Halloween. De acordo com certas lendas, esses animais são possíveis transformações de bruxas.
- Gatos Pretos – Para além da vaga de azar que atormenta os mais supersticiosos, os gatos pretos sãoconhecidos como os “fiéis companheiros” das bruxas.
- Aranhas – Uma das decorações mais comuns do Halloween são as teias de aranha. A aracnofobia é um dos medos mais comuns e suficiente para marcar presença na noite mais assustadora do ano.
- Esqueletos – Representam a morte. A cultura celta via as caveiras como “assentos psíquicos” para os seres humanos.
- Fantasmas – Provêm da tradição celta que acreditava que nesta noite os espíritos dos mortos se erguiam e vagueavam pela Terra.
E Portugal?

Gato Preto, o “fiel companheiro” das bruxas.
Portugal não escapa ao fenómeno do Halloween, ou Dia das Bruxas como é conhecido por cá. Podem ficar aquém do nível americano ou de outros países, mas as lojas portuguesas já sentem a sua influência. Pela noite já vagueiam dezenas de mascarados. A adesão às festividades aumenta de ano para ano e a tradição anglo-saxónica veio para ficar.