A exposição “Adorno Político” está nos Maus Hábitos, no Porto, até dia 20 de Janeiro. Vídeo, fotografia e escultura dão voz e cara à “emergência” dos acontecimentos contemporâneos que se manifestam nas variadas dimensões públicas: política, económica, social e cultural. Este é o reflexo das investigações e experiências artísticas de Tales Frey, artista, comissário e curador da exposição. Brasileiro a viver em Portugal, o performer fala sobre as problemáticas em torno do corpo e dos seus estados de normalização na sociedade, desde as questões de género até aos padrões estéticos vigentes e as possibilidades de rutura.

Qual é o objetivo da exposição “Adorno Político”? Que mensagem pretende transmitir?

“Adorno Político” é uma exposição coletiva, através da qual, junto do meu parceiro de arte e vida, Da Mata, eu reuni quinze artistas brasileiras(os) cujas obras refletem motes atuais da cultura contemporânea, sendo o recorte curatorial pautado na maneira como cada artista pensa no adorno corporal como um meio e/ou veículo de transmissão de suas ideias, criando assim um diálogo entre a interioridade e a exterioridade do sujeito através do adorno, reforçando o corpo como um signo de micropolíticas variadas.

Tales Frey é o curador da Exposição “Adorno Político”.

Quando fui convidado pelo Daniel Pires para fazer a curadoria de duas exposições para o Maus Hábitos, ele escolheu a palavra “Emergência” como tema da programação para o biénio 2018/19 e, então, o meu objetivo com esta exposição foi o de trazer à tona assuntos que decretassem questionamentos e respostas imprescindíveis acerca das variadas esferas públicas da atualidade, mas principalmente no que dizem respeito às questões sociopolíticas e culturais.

Por meio de “Adorno Político”, quis congregar pautas variadas e múltiplas vivências que são excluídas de um sistema hegemónico inquestionavelmente cruel.

Ressalto que o simples facto de haver um grupo de artistas do Brasil exposto em Portugal e com a curadoria de um brasileiro já direciona a atenção da e do visitante para múltiplas questões (de)coloniais. Em muitos trabalhos, tais abordagens são intencionais, enquanto em outros isso acaba emergindo de maneira menos explícita.

Tratando-se de corpos subalternizados, significados pelos modos específicos de exclusão da representação política e legal, todo esse conjunto de artistas acaba aliado num ato de resistência comum, sem que a curadoria reproduza estruturas de poder e opressão ao tentar falar pelo outro. Há diversos lugares de fala nesta exposição e todos esses lugares dialogam entre si de algum modo, sem que um tente falar pelo outro e, com isso, silenciar o outro sem querer. As vozes reunidas são autónomas. Trata-se de um conjunto diversificado de realidades que não pode ser classificado como um grupo homogéneo, ainda que sejam todas e todos artistas (e também o curador) oriundas(os) de um mesmo território.

Qual é esse tal ato de resistência comum?

Essa é uma das ideias que busco disseminar com a exposição mas não apenas essa ideia, pois a arte é muito subjetiva e não posso limitar os signos existentes na exposição a uma única forma de absorção dos mesmos pela audiência.

Sobre o ato de resistência comum, explico melhor. Nas eleições presidenciais no Brasil em outubro deste ano, um fascista foi eleito e, segundo as declarações do próprio, os direitos humanos estão completamente ameaçados. E quem exatamente é ameaçado nessa “nova” política anunciada? São sempre os mesmos corpos excluídos, ou seja, as mulheres, LGBTs, a população negra, os povos indígenas, todos os corpos não enquadrados num padrão estético que nem preciso explicar, porque ele é diariamente apresentado para nós por meios variados. Por isso falo de uma resistência e há que ser uma resistência comum a todas e todos postos à margem.

Não podemos estar desunidas(os) num momento tão nebuloso como este atual.

Veja a Rússia que criminaliza a homossexualidade, campos de concentração na República da Chechénia para gays, onde são torturados de várias formas.

Realizar uma exposição como esta aqui em Portugal é uma forma de alertar para que atrocidades como essas que aponto não sejam repetidas. É uma maneira de fazer despontar a existência das diferenças, propondo um caminho contrário às políticas que homogeneízam pessoas.

De que questões sociopolíticas e culturais se tratam?

De questões condizentes aos quinze sujeitos expostos ali por meio de seus trabalhos, bem como das questões que me atravessam também, uma vez que sou curador e reuni ali todas as vozes associadas à minha. Somos todos e todas brasileiros e brasileiras em “Adorno Político” e estamos imersos numa realidade sociopolítica e cultural muito complexa, mas que é comum a nós. Somos procedentes de um território colonizado, que foi e ainda é saqueado. Somos de um território racista em que a taxa de homicídios de pessoas negras é mais do que o dobro da de pessoas brancas e essa taxa cresce ao invés de diminuir.

O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo. É um país que promove a cultura do estupro em seus comerciais de cerveja, associando futebol à uma cultura claramente machista quando objetifica os corpos das mulheres. E cresce o número de mulheres vítimas de homicídio no Brasil ao invés de diminuir também.

As questões sociopolíticas e culturais presentes na exposição englobam tudo isso. André e Letícia Parente, Priscilla Davanzo, Gal Oppido, Marcela Tiboni e Joana Bueno ridicularizam os mesmos já manjados padrões de beleza. A artista Lenora de Barros, o Nino Cais e o Renan Marcondes usam seus próprios corpos encarcerados em indumentos particulares e, com isso, criam analogias aos corpos que compõem a nossa sociedade. Andressa Cantergiani integra o seu corpo feminino à natureza em homenagem ao artista brasileiro Tunga. A artista Élle de Bernardini composta sob folhas de ouro, Rafael Bqueer em traje de Alice no País das maravilhas e Lyz Parayzo em sua exuberante feminilidade achincalham os preceitos das construções corpóreas heteronormativas com inquestionável maestria, enquanto Tiago Sant’Ana e Suelen Calonga trazem à tona as questões raciais que infelizmente, mesmo que mascaradas, elas ainda existem.

Que “pautas variadas e múltiplas vivências” são excluídas do sistema?

FOTO: Maria Pimentel

No sistema que critico ali, as pautas excluídas são as direcionadas aos corpos não formatados num sistema heterocentrado, corpos que, por não serem taxados por belos num claríssimo projeto estético opressor, são discriminados.

Corpos que não são submetidos à magreza padrão, que não possuem a pele tida por referência num conceito tão fabricado de beleza, que não aderem sorrisos artificialmente brancos como os de comerciais de televisão e são renegados por isso, porque não entram numa forma que produz tanta gente indistinguível em imagens e comportamentos tão previsíveis.

De onde surgiu o convite do Daniel Pires? Como foi todo o processo de montagem?

A minha relação com o Maus Hábitos começou há muito tempo. Conheci o Daniel em 2008 e, desde 2012, passei a apresentar ações de performance no espaço. O meu trabalho como artista foi acolhido na época e, depois disso, passei a propor alguns projetos como artista e a ser convidado para integrar outros como curador. Apresentei lá as ações “Espasmos Caninos” e “Dismorfofobia” como parte do evento Tômbola Show em 2012, “Por Favor, Não Tocar” (2015) e “Be (on) you” (2016) em dois anos consecutivos durante o Queer Porto e ainda, em 2017, pude experimentar a performance “Finitas Contagens para Infinitas Variações” materializada num espaço exatamente como eu desejava. Em 2015, fui convidado para realizar a exposição “Trabalha-dores do Cu” e dividi a curadoria com o Da Mata e foi lendário conseguir incluir tanta gente talentosa e tão atenta ao que nos rodeia naquela exposição. Foi um evento muito vivo com muitas ações de performance e o sucesso dela foi notável. “Adorno Político” é uma espécie de continuidade daquele nosso manifesto em forma de exposição.

Apesar da seleção de obras de “Adorno Político” ter sido muito racional, algo que fiz em parceria com o Da Mata (embora ele não assine a curadoria comigo desta vez por questões de regras de contratação), a montagem foi bem intuitiva. Eu e o Da Mata fizemos um projeto expográfico antes da montagem, mas eu preferi observar a sala vazia e, depois, com todas as obras no espaço para, então, organicamente ir alojando cada uma delas, relacionando os nichos temáticos, costurando as narrativas menores até a narrativa maior.

Tratam-se de 15 artistas, todos eles vítimas de ideologias, políticas e da própria sociedade? Em que se assemelham e o que os distingue?

Em quase todas imagens, as(os) artistas utilizam o próprio corpo na obra e, neste sentido, a exposição está extremamente amparada pela performance e body art, onde o corpo é veículo e meio de expressão das ideias de cada criador(a).

Não acho que são vítimas das ideologias. Não me refiro a estas pessoas (e nem a mim) como vítimas da sociedade. São pessoas que vivem as suas experiências de maneira livre e todas e todos representam grupos de pessoas excluídas de um claríssimo sistema sociopolítico que não contempla determinados corpos e é nisso que todas(os) se assemelham.

A distinção é inequívoca, pois cada pessoa ali é uma singularidade particular por mais que tenham pontos de identificação por questões relacionadas à identidade e à subjetividade de cada um(a) em relação a todo um conjunto social.

Sobre o trabalho da Lyz Parayzo e da Joana Bueno, qual é o simbolismo e a que conceitos tentam chamar à atenção?

Ornado com um vaso de samambaia natural – que era um item já existente no ambiente do primeiro salão da artista Lyz Parayzo em exposição ocorrida no último andar do altíssimo edifício abandonado Abraham Lincoln na cidade do Rio de Janeiro – o Salão Parayzo é um ambiente em tons rosados criado pela artista para ativar a sua ação “Manicure Política”. A performance consiste em aguardar que voluntárias(os) sentem-se com ela para terem as suas unhas pintadas com esmaltes cor de rosa. A obra está evidentemente amparada pela estética relacional, sendo que as conversas – que dali surgem – funcionam como importante componente para o trabalho e, à medida em que cada pessoa sai dali com as unhas coloridas, as histórias são recontadas quando as unhas são mostradas a quem não participou da ação. As histórias são espontâneas. Não há um roteiro para a conversa; Lyz e a audiência podem falar sobre qualquer coisa e o que importa é aquele convívio naquele recorte de tempo, mas as questões ligadas ao corpo trans de maneira quase inevitável são abordadas. Adolescentes, adultos, crianças, idosas e idosos participam da ação. Quem quiser pode participar. Há homem cisgénero que cede as unhas à pintura e encara aquilo como brincadeira enquanto está na sala de exposição à frente da audiência, mas quando sai dali e ganha às ruas, essa pessoa vai perceber os olhares direcionados à sua mão e vai lidar com isso da forma que achar mais conveniente. Vai esconder nos bolsos? Vai admitir as unhas pintadas na sociedade? Vai se explicar às pessoas dizendo ter participado de uma performance? Vai recontar a conversa que teve com a Lyz? Enfim, o trabalho tem essa ideia de “vírus” que é disseminado e eu acho que essa é a genialidade do trabalho.

A artista Joana Bueno expõe o vídeo que realizou a partir da cirurgia de remoção de próteses de silicone a qual se submeteu. Anos antes desta cirurgia de abscisão, Joana recebeu de presente um par de próteses de seios de seu ex-namorado e os colocou por meio da intervenção cirúrgica. O trabalho revela a relação do corpo feminino submisso às cobranças de um machismo latente na nossa realidade cultural, mas revela, mais do que isso, o corpo feminino em processo de emancipação, de libertação de um arquétipo construído e confirmado todos os dias nos mais diversos meios da nossa vida. Em relação com esse trabalho, a performance de Priscilla Davanzo da abertura ou as imagens captadas do corpo dela pelo artista Gal Oppido, o vídeo de André e Letícia Parente, bem como a fotografia (autorretrato) da Marcela Tibone tocam nessa mesma temática do corpo submetido às exigências de um padrão.

Priscilla Davanzo ao fazer uma sutura em sua pele diante da audiência na abertura do evento está falando também desse corpo feminino subordinado aos exigentes padrões de beleza. Em “Pour être une seductrice”, as meias 7/8 da artista são desprendidas das ligas e conectadas diretamente nas suas coxas, integrando a vestimenta ao seu corpo. Davanzo expõe a perfuração, a dor e o sangue como processo de um ornamento e a audiência contempla tudo isso e, compactuando ou não, ninguém sai da sala incólume. Há um efeito de catarse nessa ação e isso é algo muito raro.