Um grande número de comentadores que surgem nos palcos televisivos são políticos ou encontram-se com funções suspensas.

Marques Mendes tem um espaço de comentário todos os sábados na SIC.  NELSON GARRIDO

O comentário político televisivo tornou-se uma formula recorrente de dar tempo de antena aos políticos. Rostos de Marques Mendes ou Manuela Ferreira Leite são alguns mais conhecidos que marcam presença semanal na televisão portuguesa. No entanto, muitos desses comentadores têm, ou já tiveram um cargo político.

Apesar destes políticos despenderem algum do seu tempo dedicando-se à televisão, as suas motivações não estarão só na exposição mediática, visto que esta atividade parece ser financeiramente lucrativa. Segundo noticiou a CorreioTv, Luís Marques Mendes, antes de sair do canal de informação a cabo, TVI24, terá rejeitado uma proposta de sete mil euros e, alegadamente, ter-se-á transferido para a SIC por ter recebido uma oferta melhor. Por outro lado, a antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite aufere alegadamente, de um ordenado que ronda os cinco mil euros pelo seu espaço de comentário todas as semanas, na TVI24.

Além disso, se se comparar a orientação politico partidária dos comentadores com a representação dos partidos no Parlamento, verifica-se que a diferença não é muita. Os comentadores ligados ao PSD, o partido com mais comentadores na televisão, surgem no topo, seguidos pelos comentadores do PS. O ex-provedor do Espectador José Manuel Paquete de Oliveira aplaude a televisão pela capacidade de ampliar o debate político, mas crítica a presença contínua de comentadores ligados ao PS e PSD.

Ao facto de se os comentadores são ou foram políticos, o diretor geral adjunto da informação da SIC, Alcides Vieira, afirma que grande parte dos comentadores são políticos que já não se encontram no ativo, não se tornando assim “porta-vozes dos partidos”. “O nosso sistema político e partidário também contribuiu para a criação da função do ex-político no ativo que é comentador”, refere o antigo diretor da RTP2 Manuel Falcão. Acrescenta ainda o facto de existir políticos a comentar outros políticos, situação que se tornou normal.

De qualquer forma, para o predomínio de políticos comentadores na televisão portuguesa surgem possíveis razões. Para Rita Figueiras, especialista no tema, uma das hipóteses é o facto de Portugal ter uma democracia ainda jovem e “o jornalismo ter estado muitos anos sob a alçada do poder político”, destaca. No entanto, a especialista refere que a presença de políticos comentadores é um bom palpite das televisões, pois “os media sabem que resulta a nível de audiências”. Para Rita Figueiras, o contributo para o esclarecimento da população não é considerável porque os comentadores recorrem à televisão como forma de ser uma extensão do percurso partidário, trazendo “o Parlamento para a televisão”, admite.

Por seu lado, o antigo diretor de Informação da RTP, Paulo Ferreira, contra-argumenta afirmando que o mais importante é que os comentadores “tenham uma opinião que marque a agenda”.

Também a capacidade de dar notícias em primeira mão é um dos muitos “pré-requisitos” para chegar aos ecrãs. Paulo Ferreira acrescenta ainda a facilidade para comunicar em televisão e transmitir “um pensamento de forma estruturada” é uma das características para se ser comentador, assim como ter uma “capacidade analítica e opinativa” e o “conhecimento do processo político”, sustenta.

Mas não é só sobre políticos comentadores que se gera controvérsia. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) aprovou a proibição de funcionários e dirigentes dos clubes de “participaram regularmente em programas televisivos que se dediquem exclusivamente à análise e do futebol profissional”. “Os dirigentes e funcionários das sociedades desportivas e dos clubes fundadores destas que participem, na qualidade de intervenientes regulares, em programas televisivos que se dediquem exclusiva ou principalmente à análise e comentário do futebol profissional são sancionados”, refere ainda o ponto 1 do artigo 140.º A do Regulamento Disciplinar da Liga.

Na sua maioria, os políticos comentadores são formados em Direito e têm uma média entre 45 e 60 anos. Apesar de existirem muitos comentadores, vários investigadores e politólogos destacam que não estão a contribuir para uma elevada consciência política dos portugueses. Por isso, Rita Figueiras vê como solução trazer mais académicos para junto da televisão.