Filipe La Féria, tem 72 anos de idade e mais de 50 anos de carreira. É considerado o pai do teatro musical em Portugal. Esteve à conversa com o Correspondente.

Filipe La Féria está agora a preparar o espetáculo “Mamma Mia” para em breve pôr em cena no Politeama. MARGARIDA RIBEIRO

Como é ser considerado o pai do teatro musical em Portugal?

[RISOS] Aí o pai era o Gil Vicente, o pai do teatro era o Gil Vicente. De facto, quando eu comecei a fazer musicais achava-se que o público português não gostava nada de musicais. “Ai o público português só gosta de revista e etc, mais brejeira.” Foi uma luta muito grande, mas sabe agora toda a gente faz musicais. Mas o público referencia-me de uma maneira muito especial, isso é verdade. É com muito trabalho, com sangue, suor e lágrimas. Sempre lutando nunca desistindo. Todas as profissões intelectuais em Portugal são muito difíceis de nós termos um lugar e de realizarmos os nossos sonhos. Mas eu sou um caso privilegiado, também porque sou muito teimoso. Então como podem ver aqui isto cheio de papelada desde de manhã à noite pumba pumba e tem que se ter um grande animo. A Fernanda Montenegro uma grande atriz brasileira – que diz assim, uma senhora que já tem 90 e tal anos, quando uma pessoa vem para o teatro é melhor desistir, vá para casa, quer vir para o teatro desista e só se tiver muito infeliz, só se achar que isto era a sua vida ou isto ou a morte é que então venha para cá. Nós vivemos hoje numa sociedade muito de aparência, as pessoas também vão muito para o teatro para irem para as telenovelas, para se exibirem, para serem figuras públicas, isso não tem nada haver com arte. Nós temos que ter um ideal, temos que fazer teatro para nos melhoramos a nós, em primeiro lugar e depois melhorarmos as outras pessoas. Quando uma pessoa vai ao teatro tem que ficar sempre com uma interrogação, as coisas podiam ser diferentes, porque o teatro é um grande espelho que se coloca à frente dos espectadores. Você está-se a ver, as pessoas que são feitas da sua matéria, o ser humano. Este bicho da terra tão pequeno como dizia o Camões. Tão complexo, tão sublime e ao mesmo tempo tão cruel. Queremos ser melhores, queremos atingir a sublimação da vida. A vida é uma coisa muito rápida, muito débil, muito frágil e ao mesmo tempo muito absurda.

Sente que é reconhecido aqui em Portugal?

Eu acho que sou muito reconhecido pelo público. No Porto tive lá 4 anos no Rivoli é uma terra maravilhosa. Nunca tive que pagar um hotel, um almoço, um jantar, uma dormida porque as pessoas gostavam, agora não sou nada reconhecido pelo estado, porque eu digo tudo da boca para fora e de facto há 24 anos ou mais que não tenho um único subsidio. Eu só pago, só pago impostos é sempre um cerco muito apertado. Não tenho subsídios, portanto o estado não me ajuda mesmo. A política cultural em Portugal, os nossos políticos não são cultos, começa por isso.  Veja no orçamento, a cultura é umas coisas para o fim, é para calar. No Porto, eu trabalhei muito no Rivoli fiz espetáculos maravilhosos o Jesus Cristo Superstar, O Violino do Telhado, A Gaiola das Loucas (que foi um verdadeiro escândalo no Porto), a Música no Coração, tantos espetáculos. Num dia fui-me embora mudou o presidente, este não gosta de mim. As pessoas perguntam porque é que vou embora e eu digo que vou embora porque não tenho teatro para onde ir. Ou vamos para o Sá da Bandeira que é um teatro com uma grande limitação porque está a cair ou é tudo lá da mesma… Depende tudo do mesmo lobby.

O encenador refere estar contra a posse do Estado sobre os teatros, defendendo que estes deveriam pertencer aos artistas e a quem neles trabalha.

Eu sou muito contra isto do teatro estar muito preso ao Estado, porque depois nós temos o teatro ao sabor da sensibilidade de quem está no poder. Você vai a qualquer terra, todos os teatros são da câmara. Não há teatros, os teatros deviam ser dos artistas, das pessoas que dão o sangue, que dão a alma e dão a vida pelo que gostam. Pela sua profissão, pela sua arte. Aqui não, aqui parece que vivemos todos no estalinismo que o teatro é do estado. É do estado uns gostam outros não gostam, depois se a gente é apoiada por uns e vêm a seguir outros pagamos todos pela mesma moeda. Está extraordinariamente politizado e ao mesmo tempo ninguém dá importância. Você abre as televisões quase nunca falam em teatro. Nem teatro nem cultura. Quando dá é naqueles programas das horas extraordinárias e os programas dos cartazes, às 3h da noite. O resto é uma injeção continua de política e futebol e futebol e política, de comentadores políticos e de futebol. Vemos que o nosso público está muito embrutecido porque a televisão hipnotizou. De facto, o novo poder político utiliza a televisão como uma arma perigosíssima. Se se anunciar que um elefante voa sobre os Aliados, então “eu vi na televisão que um elefante estava a voar sobre os Aliados”: portanto é esta a sociedade do espetáculo em que nós vivemos.

Viver do Teatro em Portugal é tão difícil como parece?

É muito difícil, quando estive no Porto, e isso me orgulho, eu só fazia teatro com pessoas do Porto, levava 3 ou 4 atores daqui [Lisboa] e muitos têm agora seguido as suas carreiras e mostrado o seu valor e ali começaram no Rivoli. Hoje o Rivoli é quase uma coisa de dança, para dança dos contemporâneos, mas é uma coisa para uma elite, o estado está a transformar o teatro num coque lux para a elite. Tal como o cinema português é para uma elite. Quando o teatro é o contrário disso o teatro é para todos é para o povo, para o grande público, para todos os públicos. Porque o teatro sem público não tem razão para existir. Como se dizia no Hamlet, uma peça extraordinária do Shakespeare, “alguma coisa está podre no reino da Dinamarca”.

Alguma vez considerou sair de Portugal?

Muitas vezes. Por vezes fico arrependido de não ter saído porque tive oportunidades em Inglaterra e em Espanha. Tive oportunidades e convites bons para ir, mas depois eu sou um homem que acreditou muito no 25 de abril. Pensava que o país ia ser diferente, para melhor, para muito melhor e fiquei sempre por cá. Embora tendo muitos espetáculos meus a viajar por essa europa fora.

“Ai eu não me preocupo com nada com a posteridade, estou-me a marimbar para isso. Com certeza depois farão um musical sobre a minha vida.”

Já tem 50 anos de carreira e continua a receber o público na entrada do teatro. Porque é que o faz?

Porque eu quero sempre falar com o público, aprendo muito, percebo o que é que eles gostam, o que é que eles não gostam e o que se passa naquelas cabeças. O que se pode ainda fazer para os atrair a virem ao teatro. É uma grande lição que eu apanho todas as noites, eu é que enriqueço. Não é os programas que lá vendo a 5 euros que me adiantam alguma coisa, mas é falar com eles. Falar e perceber que há pessoas de Viana do Castelo ou de Vila Real de Santo António que vêm de propósito, fizeram quilómetros. Ainda no outro dia para a “Comédia Fantástica” um casal tinha vindo de avião de Bragança só para vir aqui. Acho que é muito importante nós termos a noção do que é o Portugal real, do que são as pessoas. Por exemplo, com este caso dos incêndios, as pessoas viam aquelas pessoas tão pobres quase da idade média, mas isto é Portugal. Não é um Portugal urbano, porque Portugal não é Lisboa e Porto e o resto é paisagem e sobretudo o Portugal do interior está completamente abandonado. Eu sou alentejano e vejo aquelas terras completamente abandonadas, jovens não há emigra tudo para a Suíça. Aquelas aldeias e vilas cheias de pessoas seniores a viver em condições muito miseráveis, a democracia não chegou lá. O 25 de Abril que já foi há 40 e tantos anos ainda não chegou lá, talvez nunca chegue não sei.

Com todas estas dificuldades que sente alguma vez pensou em reformar-se ou “parar é morrer”?

Não reformar não, reformar eu acho que só se tiver uma doença muito grave. Porque a minha forma de estar na vida, a minha forma de respirar é a fazer teatro é o meu trabalho é o que eu gosto, é o que me compensa, o que me dá razão à vida.

Como é que gostava de ser recordado?

Ai eu não me preocupo com nada com a posteridade, estou-me a marimbar para isso. Com certeza depois farão um musical sobre a minha vida. [Risos]. Eu penso que sou uma pessoa, muito positiva e otimista, nunca penso no que vai ficar. Eu gostava era de ser recordado pelas minhas netas como um bom avô, isso gostava. Porque gosto muito delas, gosto muito da minha filha. Gostava que elas pensassem “olha aquele maluco fez tudo para fazer boas coisas no teatro e no fundo podia ter muito mau feitio, mas não era má pessoa”.

Então acha que a fama tem um prazo de validade?

Sim, você veja quando morreu o Nicolau Breyner toda a gente falou agora pergunta a um jovem quem é já ninguém sabe. Então as pessoas do teatro são só para uma geração, máximo duas gerações. Se eu perguntar quem foi a Laura Alves vocês quase nem sabem, foi a maior atriz portuguesa. Então quem foi o Estevão Amarante isso ninguém sabe. Portanto o teatro fica na memória de quem o vê e é só de duas gerações, três o máximo se uma pessoa viver muito tempo. Eu por exemplo tive a sorte de contracenar com grandes atores e de ver a Palmira Bastos e o Raul de Carvalho, a Amelia Rey Colaço que foi minha mestra durante anos e anos esteve à frente do Teatro Nacional. Quando havia uma companhia de teatro nacional em Portugal. Porque em Portugal não há. Nem companhia de teatro nacional, nem companhia de opera. Coitadinha arrasta-se ali a companhia de bailado. Não há nada é o deserto cultural completo. Temos uma orquestra que vive com muitas dificuldades, há uma orquestra do norte, mas coitados os homens vivem com umas dificuldades terríveis. Veem os artistas quase como se fossem uns sem abrigo.

Quando é que soube que queria ser encenador?

Desde miúdo porque eu nunca aceitei a realidade, eu sempre reinventei a realidade e quando via as pessoas mais adultas eu achava que a vida era toda um teatro.

Como é que nasceu a paixão pelo teatro musical?

O teatro musical foi pela minha avó, a minha avó era uma pessoa muito culta e levava-me até ao São Carlos à Opera. Por exemplo uma das coisas que eu vou ficar para sempre frustrado é que nunca fiz uma opera, mas cá não se faz opera nenhuma. Gasta-se milhares de euros para vir companhias estrangeiras. Eu faço muitas audições e vêm muitos cantores sopranos maravilhosas tenores e eu digo “vão para o estrangeiro, vão se embora daqui o mais depressa possível”. Mas isto é trágico, a gente dizer isso é trágico. Eles nunca vão ter carreira cá porque cá não há opera. Vão cantar para onde? Para a casa de banho, para o chuveiro?

Lembra-se de qual foi o primeiro espetáculo que viu?

Foi há muitos anos, no século passado era muito pequenino. Era no teatro que foi destruído, porque aqui em Lisboa destruíram os teatros quase todos. Foi no teatro Monumental e lembro-me de ver uma revista há muitos anos, fui de calção e com os meus pais. Lembro-me vagamente, é uma imagem encoberta por nevoeiro como se fosse D. Sebastião.

Quando está a construir um espetáculo qual é a parte que mais gosta de fazer?

Gosto de tudo. Agora estou a traduzir Mamma Mia, que é um espetáculo maravilhoso e quero levá-lo à cena e estou aqui cheio de papeis e dicionários. Agora também nos ajudam muito toda a tecnologia, os tablets e essas coisas, para fazer o melhor que sei, o melhor que posso.

Qual foi o melhor elogio que já recebeu?

Não sei, as pessoas do público são muito bonitas dizem coisas como “ai nunca mais morra” e não sei quê. Eu acho que o publico português não é como o público anglo-saxónico. Por exemplo eu lembro-me de ver grandes atores ingleses eles entravam no palco e era uma grande emoção para o publico. Aqui eu acho que as pessoas são muito desprendidas, gostam, mas depois esquecem.

De que modo é que as suas viagens influenciam o seu trabalho?

Gosto muito, não viajo tanto como quero tenho estado aqui sempre no teatro, mas gosto de ir para Londres, Nova Iorque ver o teatro e eu gosto de ter novos horizontes ver o que é que os meus colegas fazem lá fora. Como também gosto de ver aqui.

Tem algum espetáculo que seja o seu favorito?

Não, não tenho. Quer dizer tive enormes êxitos, por exemplo, a Amália foi um êxito irrepetível porque estar 6 anos em cena, mais de 6 milhões de espectadores foi toda a população portuguesa. Por vezes até há espetáculos que não tiveram tanto êxito que eu guardo como uma enorme recordação.

E tem algum que goste menos, que esteja arrependido de ter feito?

Na vida nós temos sempre o resultado das circunstâncias. Um artista que não tem dinheiro, é um pobre empresário, teatrão. Essa palavra empresário é muito pomposa para o que eu sou. Tem que se, por vezes, escolher o que fazer conforme as circunstâncias. Por vezes não consigo dinheiro para fazer o que quero; há sempre esse vil metal e sobretudo agora com tantos impostos que a gente paga, que é uma coisa horrível os impostos que se pagam em Portugal. Estamos sempre muito limitados.

Mas acha-se destemido, gosta de arriscar?

Eu gosto de arriscar, também não tenho outro remédio se não arriscar. Ou ia para casa e encerrava e fechava a porta. Por vezes penso que se as coisas continuarem assim tão difíceis, você veja que hoje, o teatro da Cornucópia desapareceu. Porque depois as pessoas cansam-se. Há um momento em que já não podem caminhar mais.

Como é que é um dia de estreia para si?

Com 50 e tal anos de estreias há um déjà-vu, mas sim há sempre esse atingir uma meta, depois o espetáculo segue por ele próprio. O fim de uma aventura e o começo de outra.

Tem algum elenco de sonho?

Trabalhei com toda a gente em Portugal, não há ator que possa dizer que nunca trabalhei. Sou um enorme privilegiado e trabalhei com várias gerações de atores e sobretudo orgulho-me de ter revelado grandes atores, grandes comediantes, cantores, bailarinos e músicos que começaram comigo e estão sempre a começar.

Acha que é exigente demais ou é exigente à medida certa?

Sou exigente, porque não sou insatisfeito, não sou nada convencido. Quero sempre melhorar.

E é muito auto critico?

Sou um bocadinho sim, nós em Portugal e sobretudo nesta profissão nunca atingimos a perfeição. Nesta profissão uma pessoa insatisfeita como eu quer sempre atingir os limites que estão sempre muito longínquos.

“Sim, sim muitas vezes pensei em desistir, mas depois há toda a paixão, isso é como um grande amor. Pode o grande amor nos prejudicar, mas a gente segue sempre a amar.”

Quando está aqui no Politeama sente-se em casa?

Isto é a minha casa, quer dizer isto não é a minha casa, que tenho de pagar uma renda. É uma casa abonada, no fim tenho uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Não tenho mais nada.

Lutou tanto tempo pela sobrevivência do Politeama, nunca pensou em desistir?

Sim, sim muitas vezes pensei em desistir, mas depois há toda a paixão, isso é como um grande amor. Pode o grande amor nos prejudicar, mas a gente segue sempre a amar.

E em relação ao grande amor que é o Teatro, o que o motiva a continuar?

É a paixão e o teatro como qualquer arte. Qualquer coisa que nós façamos da vida tem que ser feita com paixão.

Quais são as coisas mais importantes na sua vida?

Saúde, as minhas netas, a minha filha e o teatro, a minha irmã também, a minha família.

E o que mudou mais na sua vida quando nasceram as suas netas?

Ai ser avô dá outra perspetiva de vida. Porque já temos outra idade, sabemos que não as vamos acompanhar toda a vida, sabemos que a vida é muito limitada e que teremos que aproveitar muito bem o tempo porque estamos condenados a não seguir os caminhos.

E as suas netas já vieram assistir a algum espetáculo?

Sabem tudo de cor e salteado, uma tem 2 anos e outra 5, mas sabem tudo.

E têm algum favorito elas?

Gostam muito do Aladino, que está em cena, a Pequena Sereia gostaram muito, mas gostam de tudo.

E a sua filha?

Acho que é o Violino do Telhado, aliás que estreou no Porto no Rivoli.

Qual foi o melhor ensinamento que os seus pais lhe deixaram?

Os meus pais ensinaram-me a olhar para as outras pessoas, o mundo e a vida só têm razão pelos outros. Não olharmos só para dentro de nós próprios, sabermos que há sempre pessoas que precisam muito mais do que nós e que precisam de nós.

Acha que estariam orgulhosos de si e do seu percurso?

Acho que pelo menos compreendiam que faço sempre o melhor possível, por vezes não consigo como toda a gente. A minha premissa é de tudo o que faço na vida fazer o melhor possível é superar-me.

Sente-se realizado ou acha que ainda lhe falta alguma coisa?

Não, não me sinto realizado porque o país, Portugal não é um país onde as pessoas se possam sentir realizadas, as condições são sempre muito precárias. Há sempre um mundo que você não consegue atingir porque é um país muito pobre e as nossas profissões, são profissões quase marginais porque não vendemos gasolina nem comida, nem futebol. Portanto são profissões olhadas sempre de uma maneira marginal.

Acha, portanto, que tem algum sonho que vai ficar por realizar?

Tantos, isso de fazer opera, que foi o que me levou para o teatro esse sonho, pelas razões já expostas, não se vai realizar de certeza.