Ó mar salgado quanto do teu sal são greves em Portugal. Agora qualquer motivo de desagrado se tornou desculpa para uma greve. Não é que eu discorde. Eu a quem sempre disseram que dava uma boa sindicalista, mas também não posso concordar que a solução para tudo na vida é fazer gazeta e ir para a rua com cartazes e altifalantes. Ora 2017 foi definitivamente o ano das greves. Professores, médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, correios,trabalhadores de super e hipermercados,pilotos, funcionários da FNAC e até alunos de uma escola de dança. Há quem reclame aumentos salariais, outros menos horas ao serviço, progressão na carreira ou melhores condições de trabalho.

Dizem os dados da Pordata que em 1986 foram registadas 363 greves, valor que se revela insignificante se comparado com dados de 2016, que revelam que trinta anos depois, foram apenas 76 as greves registadas, o que denota claramente a inércia que se viveu nesse ano ao nível da contestação social. Tratou-se de um dos anos com menos greves em Portugal, ainda que os dados não incluam a Administração Pública.

Certamente os valores obtidos durante o ano de 2017, que ainda não foram divulgados, estarão bem acima dos registados há dois anos. E agora eu questiono-me: estaremos nós a remar na direção certa? Bem, pelo menos já vamos à luta. Sim porque cruzar os braços e esperar sentado não muda nada. Além disso, contestar nunca fez mal a ninguém mas creio ser urgente tomar o pulso ao que deve ou não ser pretexto para ir à luta.

No caso dos professores, cuja luta da classe parece não ter fim, admito que tenho compaixão pelo facto de muitos ficarem deslocados, aliás deslocadíssimos da área onde residem. Certamente que com um bocadinho de jeito e esforço por parte do ministério se podiam identificar possíveis permutas. Sim porque não faltarão casos de professores de Lisboa colocados no Porto, por exemplo, e de professores do Porto colocados em Lisboa. Bom senso da parte do Governo seria útil neste caso.

O direito à vida pessoal parece-me também fazer todo o sentido, até porque antes de sermos trabalhadores somos todos seres humanos e disso os patrões nem sempre se lembram. Aliás, muitos até se esquecem. Disso e do facto do comum mortal poder ter filhos e usufruir de alguns dias na companhia do novo rebento. Mas se me falarem em greves contra avaliação do desempenho, aí o caso muda de figura.

Acho que só quem tem o “rabo caçado” se opõe a ser avaliado. Se assim não fosse, não havia tantos a fugir a sete pés quando se toca no assunto avaliação. Não digo que seja necessário implementá-la em todos os setores, mas há profissões em que faz sentido pelo menos de alguns em alguns anos averiguar se a profissão está a ser dignamente cumprida.

Reivindicar direitos parece-me bem, mas há que ter noção daquilo por que estamos a reclamar. Eu, que sempre trabalhei ao negro nunca pude exigir grande coisa, mas talvez daqui a uns anos, já empregada, a minha visão seja outra e eu queira sair à rua e contestar por tudo e por nada.