O consumo excessivo de pornografia tem preocupado psicólogos e terapeutas sexuais e vários estudos têm sido desenvolvidos. Há estados americanos que declararam o consumo pornográfico online “crise de saúde pública”

Desde sempre, a pornografia foi fortemente orientada para o sexo masculino. SHUTTERSTOCK

O consumo desenfreado de conteúdo pornográfico é cada vez mais uma realidade mundial, não fosse este um negócio que tem gerado milhões e dominado a Internet. Em 2013, o Huffington Post já adiantara que os sites de pornografia obtinham mais visitantes por mês do que Netflix, Amazon e Twitter juntas. Mas desengane-se se pensa que os portugueses estão longe de ser afetados por este fenómeno que assenta no consumo irracional de pornografia por parte dos utilizadores.

Um estudo desenvolvido pelo website de pornografia Pornhub em parceria com o jornal Correio da Manhã constatou que os portugueses têm consumido cada vez mais pornografia, especialmente os homens.

Contactado pelo Correspondente a este respeito, Nuno Marques, sexólogo e diretor clínico da PsiMarques, clínica especializada no tratamento de problemas psicológicos, avança que o consumo de pornografia tem as suas vantagens, embora não se deva descurar as desvantagens que a sua assimilação possa acarretar.

Nuno considera que o proveito do consumo pornográfico “depende do tipo, da quantidade e da qualidade” de pornografia que é assemelhada, sendo preponderante na “quebra de tabus” e no “derrubar de mitos” e de “uma série de convenções”.

Vários estudos têm, aliás, revelado que, quando consumida em casal, pode ter vantagens. É o caso do estudo “Parceiras femininas de homens que usam pornografia: a honestidade e o uso mútuo estão associados à satisfação do relacionamento?” que verificou que “os participantes que relataram mais honestidade apresentaram maior satisfação e menor nível de angústia, e os participantes que divulgaram o uso mútuo apresentaram menores níveis de dificuldade, embora não tenham sido relatadas diferenças em satisfação”.

Ora, tal constatação vem comprovar que o consumo conjunto de conteúdo deste género pode ser vantajoso, por oposição ao consumo solitário que, por sua vez, pode implicar uma série de problemas.

Com a crescente preocupação por parte dos profissionais de saúde, e não só, são vários os estudos, essencialmente desenvolvidos nos Estados Unidos da América, que concluem se é ou não saudável assistir a filmes pornográficos.

O estudoConsumo de pornografia e Satisfação: Uma Meta-Análise da Universidade de Indiana e da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, verificou que consumir pornografia pode trazer consequências nefastas, em particular nos homens. O procedimento estatístico, que combinou o resultado de vários estudos (cerca de 50) e que envolveu mais 50.000 participantes de 10 países, concluiu que há uma correlação entre o consumo pornográfico e a insatisfação sexual nos relacionamentos. No estudo, pode ler-se que “o consumo de pornografia foi associado a resultados de satisfação interpessoais mais baixos em pesquisas transversais, pesquisas longitudinais e experiências”, “mas as análises por sexo induziram resultados significativos apenas para homens”.

Se há autores que defendem que o consumo pornográfico não pode ser equiparado a um vício, outros colocam-no, por exemplo, no mesmo patamar que as drogas e o álcool, como é o caso de Nuno Marques. “Os dados mais recentes apontam nesse sentido e, de facto, não é só uma questão social. É mesmo uma questão que tem repercussões a nível da química do cérebro. Isto tem tudo a ver com um comportamento aditivo”, adianta.

Uma habituação do cérebro que pode refletir-se, em ambos os sexos, embora nos homens seja mais prevalente, em problemas funcionais.

Desde sempre, a pornografia foi fortemente orientada para o sexo masculino, uma vez que “os homens são instruídos biológica, e até psicologicamente, a procurarem o prazer imediatamente.”

Nuno Marques reconhece ainda que o consumo pornográfico excessivo pode gerar “uma série de disfunções sexuais”. O sexólogo explica que “o cérebro fica completamente reprogramado para responder apenas ao estímulo de pornografia, e a pornografia como nos apresenta um setting muito específico, o cérebro habitua-se a responder só dentro desses parâmetros.”

A conclusão é também partilhada pelo investigador norte-americano Gary Wilson que adiantou que, para além de reformular a experiência sexual e hedonista, o consumo exacerbado pode ainda provocar disfunção erétil.

A preocupação com as potenciais consequências do consumo pornográfico levaram a que o estado do Arkansas, nos EUA, se tornasse o terceiro estado norte-americano a declarar, em março deste ano, a pornografia na internet como “crise de saúde pública”.

As autoridades do Arkansas consideram que a pornografia online promove a dependência, a hipersexualização e o aumento de abusos sexuais contra mulheres e crianças. Também o Utah e a Dakota do Sul declararam a visualização online de pornografia uma “crise de saúde pública” dados os efeitos nefastos.