Foi quando acabou de escrever “Uma História de Pássaros”, um texto inédito para a comemoração dos 45 anos do Expresso, que o Correspondente falou com o escritor Afonso Reis Cabral, Prémio Europa David Mourão-Ferreira (em 2017), Prémio LeYa (em 2014) e trineto de Eça de Queirós.

Afonso Reis Cabral é um dos 12 autores convidados do Expresso para a coleção “Inéditos” que comemora os 45 anos do jornal. JOSÉ VENTURA- CORTESIA DE AFONSO REIS CABRAL

Dos nove aos quinze anos escrevia poesia, onde abordava “temas pesados para a idade”, muitas vezes inspirado pelas leituras que fazia, e aos nove anos já lia Fernando Pessoa. “É muito útil para quem escreve ter um ambiente familiar que o ajude. E os meus pais sempre foram e são leitores muito exigentes. Estão sempre a ler.” Era um ambiente que não lhe era nada estranho. “Era o que havia em casa. E foi só seguir”, diz, embora não percebesse metade da essência, por exemplo, da heteronímia.

Com os 15 anos veio “Condensação”, uma apologia de poemas “desenrascados”, que para a idade “talvez resultassem minimamente bem”. Foi o desejo de acrescentar uma lombada às muitas já existentes na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, para onde ia estudar e escrever, que Afonso Reis Cabral andava a querer publicar há mais tempo. “Depois deixei de escrever poesia para passar a escrever só prosa, que é o que realmente gosto.”

Desde que foi para o décimo ano sabia que queria frequentar o curso de Estudos Portugueses e Lusófonos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). Trocou o Porto por Lisboa, onde nasceu apesar de ter crescido na cidade invicta, porque, na área da literatura, Portugal é um país pequeno e “Lisboa torna-o ainda mais pequeno. Para se estudar literatura, tem de se o fazer em Lisboa. Para se tirar um curso de literatura, que em princípio não tem grandes saídas profissionais, é preciso gostar daquilo.”

O trabalho de revisão “é muito ingrato: se está bem feito ninguém repara, mas quando há uma gralha, por mais pequena que seja, é o caos.”

Mais tarde, uma oportunidade de emprego na “Alêtheia” – “uma editora pequena”, mas “uma escola muito grande porque se aprende de tudo um pouco” –, permitiu-lhe passar pelas várias fases do processo de edição, revisão, comunicação e até produção. Uma experiência muito distinta quando comparada com a de revisor freelancer, que levava até então, ou daquela que viria a passar quando recebeu uma proposta de trabalho da “Editorial Presença”, onde seria, mais tarde, coordenador do departamento de revisão, orientando trabalhos e distribuindo revisões para os revisores freelancers. “Se o grosso da revisão é feito fora pelos freelancers, o trabalho mais minucioso e de remate é feito no departamento de revisão.”

O trabalho de revisão, diz, “é muito ingrato: se está bem feito ninguém repara, mas quando há uma gralha, por mais pequena que seja, é o caos.” Atualmente, escreve com regularidade, ora no computador, ora à mão quando está cansado, embora nem sempre goste do que rabisca. Fá-lo, muitas vezes, em casa, nos cafés ou quando vai, por exemplo, para a biblioteca em Campo de Ourique, onde vive.

Há muito do Afonso Reis Cabral naquilo que escreve, mas “transformado”. “Verdadeiramente, a minha vida não tem interesse nenhum ou tem muito pouco. Se eu fizesse algo puramente biográfico, não teria interesse nenhum.” Mas não gosta de pensar que a genética – por ser trineto de Eça de Queirós – é responsável pela escrita. “Eu sempre me tentei distanciar do assunto justamente porque não tem qualquer influência genética e porque quero que a minha escrita e o meu trabalho valham por si e não por uma associação familiar.”

Demorou três anos a escrever o livro que, em 2014, lhe valeria o Prémio LeYa pela obra “O Meu Irmão”. Nunca pensou em ganhá-lo. Todo o processo coincidiu com uma fase “intensa, mas divertida”, quando estava a acabar o mestrado em Estudos Portugueses, ao mesmo tempo que era detentor de uma bolsa de investigação e trabalhava em part-time. “Eu estava a sentir a necessidade de ter um prazo e uma exigência. Não ganhando, que era o mais normal, podia ficar entre os finalistas, ver o livro publicado ou ser lido.”

“Não sou ninguém para estar a aferir sobre a higiene de leitura dos portugueses”

Com o e-book d’ “O Meu Irmão” a sair com semanas de antecedência face ao livro físico, o livro digital acabou por ser bastante procurado. No entanto, a partir do momento em que este passou a estar disponível fisicamente nas lojas, as vendas do e-book baixaram imenso. “No mercado português o e-book não é significativo. No mercado norte-americano é abissalmente diferente. Não sei se o e-book é o futuro. É uma outra hipótese de que é bom que esteja disponível para as pessoas, mas não se compara com os livros [físicos].”

Quase sem tempo para fazer edição ou para ler originais, “de conhecidos”, “terceiros” ou “mesmo autores nossos”, Afonso Reis Cabral diz que uma das grandes preocupações das editoras, nos dias de hoje, é dar vazão aos e-mails que recebem. “É um processo inglório. Inglório para as pessoas que enviam os emails e para os quais não tem, muitas vezes, resposta e para as próprias editoras, cujo trabalho é editar livros e descobrir novos autores, mas não há pessoal nem capacidade para isso.”

Questionado sobre a qualidade dos bestsellers nacionais, Afonso é perentório: “Não sou ninguém para estar a aferir sobre a higiene de leitura dos portugueses. Viva, sobretudo, a liberdade. É bom que haja escolha e não é por, eventualmente, haver autores de top que não são literatura que isso significa que não se deixe de ler literatura. Há espaço para tudo. E ainda bem que há.”, remata.

Artigo também publicado no JornalismoPortoNet.