O Correspondente esteve à conversa com Nuno Marques, psicólogo especializado em sexologia, que desenvolveu uma tese de mestrado acerca da pornografia.

Nuno Marques é sexólogo e tem consultório próprio – PsiMarques – em Loures. Imagem cedida por NUNO MARQUES

O consumo de pornografia é saudável?

Depende do tipo, da quantidade e da qualidade. Relativamente à quantidade e ao tipo é interessante atender que a pornografia tem grandes vantagens se for consumida em casal. Por exemplo, se eu quero fazer uma surpresa ao meu marido ou à minha mulher, podemos ver um filme pornográfico juntos. Podemos ter ideias novas, experimentar algumas coisas, apimentar um bocado a nossa vida sexual (…) e começar a derrubar tabus, mitos e uma série de convenções. O consumo da pornografia tem vantagens em termos da quebra de tabus e da liberalização do pensamento da sexualidade.

Qual é o grande problema da pornografia?

O problema da pornografia é mais profundo do que se possa pensar a nível psicológico. Tem a ver com biologia. A espécie humana é a besta mais preguiçosa que alguma vez pisou este planeta. Os homens que estão sozinhos recorrem à pornografia. Os homens são instruídos biológica e psicologicamente a procurarem o prazer imediatamente. O cérebro humano acaba por se habituar a um ritmo rápido de recompensa.

O consumo excessivo e repetido pode potenciar a ejaculação precoce?

Pode potenciar essa como qualquer outra disfunção sexual. Se têm satisfação à frente do ecrã, não terá paciência, nem disponibilidade física e mental para ir à procura de mulheres “normais”.

No fundo as mulheres também podem padecer, mas falo nos homens porque é mais prevalente. O grande problema da pornografia é promover a masturbação solitária. Ninguém ganha com o consumo de pornografia exagerado. Portanto, há aquele pró de quebrar tabus, mas é muito fácil ficar condicionado, quer a nível cerebral, quer a nível social. Por exemplo, o açúcar e as drogas promovem uma estimulação a nível do centro de recompensa cerebral que a pornografia também oferece. Só que, tal como qualquer droga, quanto mais pornografia um viciado consome, menos tesão vai ter, menos resposta vai conseguir e precisa de consumir mais para obter os mesmos efeitos.

Podemos equiparar a pornografia ao vício das drogas ou ao vício do álcool, por exemplo, ou estão em níveis diferentes?

Eu creio que sim. Os dados mais recentes apontam nesse sentido e de facto, não é só uma questão social, é mesmo uma questão que tem repercussões a nível da química do cérebro, que só consegue ficar satisfeito daquela maneira e precisa de cada vez mais. Isto tem tudo a ver com um comportamento aditivo.

No caso de um homem não ter uma parceira, como é que resolve esse impulso de querer masturbar-se? 

O ideal é que consiga sublimar esse impulso. De facto, tem-se verificado que homens que estão cerca uma semana sem se masturbar ficam muito mais interessantes para as mulheres. O que eu recomendo quando surge o impulso é se tiverem namorada façam-no em conjunto, evitando a masturbação solitária tanto quanto possível. Se não façam uma vida social, saiam, vão a sítios onde possam encontrar parceiros. Uma semana sem se masturbar e é um sucesso, não digo garantido, mas muito elevado. De facto, o cheiro de um homem que não se masturbe durante alguns dias altera e as mulheres gostam. Tem a ver com biologia pura porque, de facto, o que a masturbação solitária faz é promover uma queda demasiado elevada da testosterona.

O que é que é excessivo? O que é que será dizer “eu consumo pornografia a mais”?

É excessivo quando começa a afetar a funcionalidade da pessoa. Quando deixa de fazer a sua vida social para ficar a ver um filme porno. Quando mesmo que coma, trabalhe ou durma, está perturbado porque não está a ver um filme porno e quando só consegue satisfação sexual a partir de um filme porno. Aí temos um problema.

Que sintomas apresentam os pacientes com este problema?

Acima de tudo, muita ansiedade, sintomas físicos, na linha do esgotamento e do cansaço, dificuldades de concentração e da memória e, também, na linha psicológica.

E é fácil identificar esta patologia, se é assim que se pode chamar?

Não é fácil porque nem sempre se assume e nem sempre se compreende. A pornografia não está catalogada como um vício. Ainda é muito pouco estudada. Nos Estados Unidos mais do que cá. O consumo de pornografia é um pouco como o tabaco. É uma coisa que socialmente ainda é muito aceite. É legítimo que o rapaz goste de ver pornografia e que tire prazer disso. 

Esses pedidos de ajuda costumam ser frequentes ou são raros?

São raros. Só após algum trabalho é que nós descobrimos que há ali um consumo de pornografia mais do que o recomendável. Não é que não existam. Não vamos confundir a prevalência observada com a prevalência real. [Como] ainda não é visto como um vício e não é tratado como tal, naturalmente não podemos dizer que sejam frequentes. Embora daqui a alguns anos venhamos a falar de um vício mais massificado, infelizmente.

Já teve casos de mulheres?

Mulheres nunca tive.

Mas seria de esperar que, estando elas mais ativas, houvesse um aumento ou isso não tem nada que ver?

Talvez. Pode ter a ver, de facto. A indústria pornográfica tem-se virado mais para o prazer feminino. Tem havido uma pornografia mais orientada para o romance, para o flirt, para aspetos da sedução. Tem havido mais mulheres a consumir pois estão hoje mais liberais e mais exigentes, mas lá está a pornografia feminina é diferente da masculina. A pornografia feminina é uma pornografia de processos, virada para os preliminares, para o toque e isso as mulheres tem muito implantado no seu cérebro. É relativamente difícil uma mulher viciar-se em pornografia. O homem é muito fácil porque está muito centrado no desempenho e no aspeto visual, enquanto a mulher está mais ligada à estética emocional da sexualidade. É mais difícil viciar emocional do que fisicamente.

Este tipo de acompanhamento deve envolver vários profissionais?

A multidisciplinaridade é importante. É importante que os vários profissionais se coordenem no sentido de trabalharem todos no mesmo sentido, em favor do paciente. Cada caso é um caso.

É possível traçar um perfil de pessoas que solicitam esse apoio?

Habitualmente são homens, entre os 15 e os 50 anos, sensivelmente. São habitualmente pessoas ligadas à gestão dos impulsos e à raiva. São pessoas muito ansiosas e que têm uma grande insegurança e uma autoestima muito baixa. Afeta todas as classes, todos os estratos socioeconómicos. Não podemos dizer que haja uma incidência específica sobre determinada camada da população.

É um tabu falar sobre o consumo de pornografia?

Eu acho que não só sobre pornografia, mas sobre sexualidade em geral. Eu costumo dizer que estamos num país que faz piadas sobre sexo, mas não fala a sério sobre ele. Ainda vai passar muito tempo até que estejamos com uma atitude liberal, e não libertina, em relação ao sexo. Ainda é muito um tabu.

E quanto a mitos associados à pornografia?

 A questão de que só importa o orgasmo masculino parece-me o mais grave, no sentido em que desresponsabiliza os homens de se preocuparem com as mulheres. Todos podemos ser atores e atrizes pornográficas porque a sexualidade somos todos e está presente em todos nós em todos os graus. A grande maioria das mulheres não é grande apreciadora da penetração e prefere chegar ao orgasmo por outros meios. Nada disto é veiculado pela indústria pornográfica. São mitos e ideias falsas que se continuam a propagar e que prejudicam, a meu ver, a sexualidade.

Qual a sua opinião sobre o boom das bonecas insufláveis?

Eu penso que podemos colocar as bonecas insufláveis ao mesmo nível da masturbação e da pornografia, ou seja, objetificar o outro lado porque uma boneca insuflável não tem vontade própria, faz aquilo que eu quero que ela faça. Eu sirvo-me dela. E os homens que acabam por se viciar nas bonecas insufláveis vão tratar uma mulher de carne e osso como se fosse uma. E vão reagir muito mal quando uma mulher, madura que é, lhe começar a exigir. 

Em que difere a sexualidade nos sexos­?

O orgasmo nos dois sexos é distinto. O orgasmo feminino é muito mais intenso. As mulheres mantêm a capacidade de ter orgasmos múltiplos, ao contrário dos homens. A questão é que a mulher é um motor de arranque lento, exige muito mais tempo de preliminares. O trabalho deve ser do homem para se adequar à mulher. Mantenho que a masturbação solitária para as mulheres, sem surpresa, é muito menos frequente. A mulher prefere estímulos não visuais. Até vou responder de uma maneira que já digo há muitos anos: “Um homem precisa de um sítio para ter relações sexuais, uma mulher precisa de uma boa razão para o fazer”A sexualidade feminina está mais saudável do que a sexualidade masculina.