A Avenida Q está em cena desde a última quinta-feira, dia 11, no Teatro Sá da Bandeira. Num espetáculo de bonecos, onde problemas e assuntos reais são falados de forma mais ou menos séria, o Correspondente esteve à conversa com dois atores da peça para perceber o que se esconde nos bastidores deste espetáculo de sucesso.

Diogo representa Tozé, um desempregado, e Inês Aires Pereira dá vida à personagem Paula Porca. MIGUEL ÂNGELO AFONSO

É uma espécie de “Rua Sésamo para adultos” e na sua primeira temporada, no início do ano passado, no Teatro da Trindade (Lisboa), contou com a presença de mais de 17 mil espectadores. Agora, veio de malas e bagagens para o Porto, para o Teatro Sá da Bandeira.

Se por um lado a “Avenida Q” nos dá uma conceção do mundo real através de bonecos e de música, por outro os problemas retratados fazem-nos rir de tão pouca piada que têm.

A versão portuguesa, adaptada do original de 2003, dos americanos Robert Lopez e Jeff Marx, reúne um elenco que tanto contracena a solo como em simbiose com as marionetas: um elenco onde se inclui Diogo Valsassina, que dá vida a Tozé, e Inês Aires Pereira, que dá voz a Paula Porca, um dos muitos bonecos que calcorreiam o palco.

À conversa com o Correspondente, os atores confessaram que este é um espetáculo em tudo diferente aos restantes: um sucesso de receita que é apenas conseguido pelo amor à “Avenida Q”.

Qual é o motivo de sucesso desta peça?

Inês: É transversal, não é?

Diogo: Sim. Acho que o maior segredo do sucesso deste espetáculo é a união que se sente em cima do palco. Nós damo-nos todos muito bem, entregamo-nos todos a este espetáculo.

Inês: Nós temos todos um amor muito especial a esta peça. É uma cena incrível para nós. É uma coisa especial para cada um de nós.

Diogo: É uma coisa diferente, é irrepetível. Por mais que se diga que cada espetáculo é um espetáculo – obviamente que um trabalho é um trabalho –  acho que este tem uma história muito bonita.

Inês: Nós sabemos que estamos todos na merda, que a vida não é fácil, que crescer não é fácil… Portanto, toda a gente se vai identificar com isto que estamos a dizer e mostramos às pessoas dramas com um sorriso na cara e as pessoas identificam-se, riem.

Diogo: As pessoas identificam-se e é muito gratificante ver as pessoas no final do espetáculo sair com um sorriso na cara e falarem “Ei, naquela cena não sei quê e na outra não sei que mais”.

Inês: Saem todos assim: “que merda que eu sou” [canta]. Recebo mensagens assim, no dia a seguir, de manhã, “Inês, que merda que eu sou”. E estão felizes porque se sentem uma merda [risos].

E esta história dita o percurso normal de um jovens destes dias – um percurso um pouco semelhante ao teu, Inês, que tentaste entrar para o conservatório e não conseguiste. Achas que é difícil para esta geração realizar estes sonhos?

Inês: Não sei se é mais difícil. Hoje há mais oportunidades. Eu acho que hoje, se calhar, é mais fácil. Hoje há mais oportunidades. Às vezes as coisas acontecem por certas vias que eu não acho que sejam tão corretas e tão certas… As pessoas andam um bocadinho confusas  com o que vale a pena e com o que não vale, mas acho que há mais oportunidades do que antigamente, portanto hoje é capaz de ser mais fácil.

E  participar nesta peça, com esta equipa, foi um sonho que acabou por acontecer e que gostaste?

Inês: É um sonho maravilhoso, é um sonho mesmo bom. Eu queria muito fazer parte desta equipa. Não consegui entrar logo no início e  depois fui a casting – queria muito, muito, muito, muito, muito e fiz muitas figas – e consegui. Este ano está a ser o melhor ano da minha vida, acho. Quer dizer, o da viagem também foi muito bom.

Diogo, esta é a tua primeira experiência “a sério” no teatro musical. O que estás a achar?

Diogo: Eu já tinha feito teatro musical, não desta dimensão, obviamente. Como é que está a ser? Está a ser ótimo. Nós, felizmente, temos uma equipa  maravilhosa e nunca é demais ressalvar o trabalho inacreditável  que o Artur Guimarães – que é o nosso produtor musical – fez connosco: porque  saber cantar ou estar à vontade com a voz é uma coisa, mas termos noção de até onde podemos ir é outra e o Artur ajudou-me imenso.

Inês: Tu és músico, não é? Há poucas pessoas que sabem disso e há gente [que pergunta] “O Valsassina canta?”. Ele canta e eu acho que tu és dos que sabe melhor aquilo que está a fazer. No sentido em que o Artur dá-nos uma nota e tu vais com as mais difíceis e apanhas logo. É mesmo músico ele, atenção.

Diogo: Não sou propriamente cantor, mas tenho muita noção da música. Mas é sempre interessante, porque depois temos pessoas aqui que cantam maravilhosamente bem e têm músicas que são muito mais difíceis de cantar do que, se calhar, aquelas que eu canto ou começo a cantar sozinho: que é o caso da Inês, que é o caso da Gabriela, que é o caso da Cloe… Que são músicas que puxam muito mais e é incrível ver como nós todos somos capazes e estamos muito bem – é muito interessante e é fixe e fico muito feliz por estar aqui.

És o único que não manipula um boneco. Achas que, por isso, perdes a diversão que os outros têm?

Diogo: Não, não perco diversão nenhuma [risos]. Eu manipulo durante um minuto o Trekkie. Mas não perco diversão nenhuma. Aliás, até me divirto mais. Porque é assim: eu, durante o espetáculo, não olho para a Inês, nem olho para o Samuel, nem olho para a Cloe: nós olhamos para os bonecos, olhamos para a Paula, para o Luís, para a Marta Monstro. Portanto, eles estão aqui ao lado [exemplifica a rir] e estamos sempre  a contracenar com o raio do boneco. É muito giro tu teres essa relação de “a Inês está aqui, mas eu tenho que olhar para este boneco”. Portanto, não perco diversão nenhuma. Para além disso, e ela melhor que eu poderá dizer isso, é muito difícil e muito cansativo – e eles ficam com dores. Não é nada fácil e os bonecos não são leves.

Inês: Eu agora, por acaso, nesta paragem de 15 dias, senti a diferença. O músculo habitua-se e ao fim de um mês, dois meses, três meses já estás mais fixe, já não te dói tanto. Quando paras e voltas outra vez são muitas dores.

Diogo: Mas não perco diversão. Eles fazem um trabalho incrível e é muito difícil.

Inês: Estavas lixado. [risos]

Diogo: Não estava lixado: se tivesse que fazer ia fazer, claro, e tinha que me habituar, mas estou ótimo, estou bem.

E os treinos de manipulação dos bonecos… foram muito difíceis, duraram muito tempo?

Inês: Sim, eu acho que os ensaios foram a parte mais difícil, porque aqui [no palco] nós fazemos uma vez e nos ensaios, quando estás a fazer aquela cena, estás a fazer aquilo 30 mil vezes e passamos horas nisto. E pronto, muito aquecimento, fisioterapia, tendinites, aquelas ligas elásticas… Foi muito difícil. No início foi do género “como é que eu vou conseguir fazer isto”, “eu acho que não vou ser capaz”, “ai meu Deus, ai meu Deus”. E depois chegamos ao fim e gravámos. E vemos o boneco a ganhar vida, e, ficamos tipo, “eu consegui”. É incrível.

Diogo: É muito engraçado. Eu conheço duas pessoas que são Personal Trainers, treinam no ginásio – pessoas que treinam todos os dias e têm muita força – e eu ia treinar e falava com eles sobre o espetáculo e dizia que era cansativo. Para mim não é tanto, mas para mim é um espetáculo que é duro, que é muito cansativo e tal. E eles ficavam assim: “mas é cansativo o quê?”, e vieram ver o espetáculo – o último que nós fizemos, em Lisboa – e no final estava a conversar com eles e eles disseram “pois já percebi porque é que dizes que é cansativo”. Porque, efetivamente, é muito divertido de se fazer: tens de estar sempre alerta, com o boneco na mão…. O boneco está sempre vivo, é como uma pessoa, que nunca está parada, portanto é um espetáculo que exige bastante de nós – mais de alguns do que de outros. Eu não tenho boneco.

E, Inês, a Paula Porca é uma das personagens mais faladas e a mais irreverente do espetáculo. É preciso mais pessoas assim no mundo?

Inês: Isso não está mal pensado. Estou a pensar se ela será a mais irreverente…

Diogo: Eu não diria que ela é a mais irreverente, eu acho que ela é a mais frontal. É a personagem mais segura de si. A questão deste espetáculo é todas as personagens estão à procura de um propósito, estão à procura de uma coisa qualquer: do seu sonho. E não sabem muito bem qual é.

Inês: E ela não está, pois não?

Diogo: Ela é a única que sabe o que é e o que quer. É a única que está altamente segura.

Inês:  Aliás é ela que diz isso ao Luís. Ela sabe perfeitamente o que está aqui a fazer: o que é que quer, o que é que não quer, e pronto. E gosta muito de homens [risos]. Tu perguntas “falta mais gente como a Paula no mundo?”. Se calhar sim, ela tem sorte. Mas eu entendo que existam  pessoas que ainda não descobriram o seu propósito.

Com um espetáculo de bonecos, seria de esperar que fosse dirigido a crianças em vez de adultos. É preciso termos bonecos a ensinar coisas básicas aos mais velhos?

Diogo: Vou-te dizer uma coisa: há uma coisa que nós dizemos sempre – aliás, o Rui Melo, que é o nosso encenador, disse várias vezes -, que é: este espetáculo não é uma coisa de moral. Nós não estamos aqui a tentar dizer “isto tem de ser assim, tem que ser assado”, não. Falamos de vários temas que são transversais e que fazem parte da nossa sociedade e que têm de ser falados, mas nós não estamos a dizer que as pessoas têm de concordar com tudo o que nós dizemos: nós dizemos as coisas de uma forma um pouco diferente. Portanto, quando se fala da homossexualidade e quando se fala da precariedade aqui, neste espetáculo, fala-se de uma forma tão fora… Para começar, são bonecos.

Inês: É muito pueril, não é? [risos]

Diogo:  (Estava à espera de usar essa palavra [risos]) Eu acho que a mensagem do espetáculo, ou aquilo que nós queremos passar, sem qualquer tipo de moralismo, chega mais rapidamente, porque capta mais facilmente a atenção das pessoas – porque não é uma pessoa só que está ali.

Inês: É uma Rua Sésamo para adultos, não é? Porque é que nós gostamos de filmes de animação e somos adultos? Porque temos uma criança dentro de nós.

Diogo: Isto é a Inês a descobrir a pólvora [risos]. É uma sátira, sim, e aquilo que nós dizemos não deixa de ser importante, mas se não concordarem está tudo bem, Se quiserem concordar está tudo bem também. Portanto, não há aqui nenhuma coisa de “vocês têm de ser todos assim”

Inês : É um tá tudo bem. [canta]

E para ti, Inês, como é agora contracenar em casa?

Inês: Só tivemos dois dias, agora vai ser o terceiro. No primeiro dia tinha cá a minha família toda em peso – tinha para aí 30 e tal pessoas, logo nas primeiras filas. Ontem também tinha uma amiga minha. Hoje tenho vinte e tal pessoas. Para já, no Porto é incrível, porque estou a fazer para os meus amigos. É mesmo especial, acabo o espetáculo a pensar “eles estão aqui todos e eu queria tanto mostra-lhes isto”. Agora, quando for com pessoas da plateia, que eu não conheço, acho que vamos ser todos muito bem recebidos, é igual.

E qual é o feedback que tens tido das pessoas mais próximas de ti?

Inês: Toda a gente adora. É aquele espetáculo que eu chateio e digo “Vão ver, vão ver” -mesmo a pessoas que não vão ao teatro: “ah, mas eu não vou ao teatro” eu digo: “Não tem nada a ver é mais uma razão para ires”.

Diogo: Há sempre pessoas que não gostam de musicais –  e eu consigo perceber, mas eu digo sempre “Repara, isto não é bem um musical” na verdadeira conceção da palavra. As pessoas vêm ver e acabam por percebem o que estou a dizer.

 

Artigo publicado no JornalismoPortoNet.