A nível mundial, a automutilação é a terceira causa de morte mais comum entre os adolescentes. O que os motiva a automutilarem-se? Como se pode ajudar? O que fazer para prevenir? O Correspondente foi procurar respostas.

2 em cada 10 jovens portugueses já se automutilaram. MIGUEL ÂNGELO AFONSO

Automutilação designa um conjunto de comportamentos de destruição direta do tecido corporal, que incluem cortar-se, queimar-se ou bater em partes do corpo com o objetivo de se magoarem. Muitos adolescentes adotam estes comportamentos como uma forma de ajudar à redução dos estados emocionais negativos, numa tentativa de regular as emoções. Maior parte destes jovens mantêm este tipo de comportamentos em segredo, privando-se de uma vida social saudável.

Para os especialistas e profissionais, a família assume um papel preponderante na deteção e tratamento deste tipo de casos, cujos estudos revelam serem prevalentes no sexo feminino.

A opinião dos psicólogos 

“Estes comportamentos traduzem sofrimento psicológico”

Os fatores de risco para tais comportamentos podem estar ligados a “experiências de bullying no contexto escolar, por parte do grupo de pares, ausência de experiências positivas de afeto e de proteção e segurança”.  Na sua investigação, Ana Xavier, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra, constatou que “os adolescentes com comportamentos autolesivos referem que nunca tiveram – ou tiveram muito poucas – experiências de se sentirem amados, protegidos, tranquilizados e de sentirem afeto nas famílias”. Não só experiências precoces, mas também ausência de experiências positivas de afeto e de tranquilização são fatores de risco para a vulnerabilidade dos comportamentos autolesivos.

Outro fator motivador é a dificuldade de regular emoções. A prática surge muitas vezes como uma forma de “ajudar o jovem a lidar com os estados emocionais negativos intensos”, refere a investigadora. Apesar das consequências a curto prazo, os comportamentos conseguem aliviar o estado emocional em que a pessoa se encontra e por isso são mantidos a longo prazo.

Mas haverá intenção de suicídio? A investigadora diz que não, embora “obviamente aumente o risco de suicídio, porque à medida que se vão cortando, de facto os cortes ou outro tipo de comportamentos como a ingestão de produtos tóxicos, aumenta o risco de suicídio. Mas o jovem não o faz com a intenção de suicídio”. Tratam-se de fenómenos diferentes, “pelos métodos usados e pelas funções”

A faixa etária da adolescência é um período de elevado risco. Ana Xavier concluiu que “20% dos adolescentes já se tinham cortado pelo menos uma vez ou que já se tinham envolvido em comportamentos autolesivos, o que é uma prevalência elevada e preocupante”.

Quanto às diferenças de género, “aquilo que muitas vezes aparece na literatura, é que há diferenças de género relativamente ao tipo de comportamento, sendo que os rapazes costumam utilizar comportamentos mais letais comparativamente às raparigas”, explica a autora do estudo ao Correspondente.

Nos estudos que conduziu com amostras de adolescentes dos 12 aos 19 anos verificou-se “sempre as raparigas a reportar um maior envolvimento nos comportamentos autolesivos do que os rapazes”. O maior número de pessoas do sexo feminino do que do masculino nesta prática pode “induzir em erro pois as mulheres procuram mais ajuda terapêutica, o que leva a supôr que são elas que têm mais comportamentos autolesivos. Mas o facto é que o sexo feminino está mais vulnerável a perturbações como a depressão e a ansiedade, e que talvez isto ajude de algum modo a explicar porque é que as raparigas se possam envolver nestes comportamentos mais vezes do que os rapazes”. A psicóloga, avisa que estas conclusões devem ser levadas com cautela, pois a automutilação pode acontecer em ambos os sexos.

A família tem um papel fundamental, que passa por não julgar e não criticar, pois estes comportamentos “traduzem sofrimento psicológico”. Deve haver compreensão e aceitação por parte dos familiares e o apoio deve passar por “encontrar ajuda psicológica” e especializada, alerta a investigadora.

Dependendo novamente de cada caso, de acordo com a investigação os adolescentes que “experienciam ou que se envolvem em comportamentos autolesivos também reportam sentirem-se ameaçados, desvalorizados e subordinados nas relações com os pais.”

Quanto à intervenção dos amigos é “importante considerar cada caso individualmente” pois por um lado podem haver amigos que “efetivamente se preocupam e ajudam”, mas também podem ser a causa de “relações disfuncionais, de bullying, de alguma vitimização”.

É necessário ter em atenção os vários contextos em que o adolescente está inserido: “contexto de casa, o conceito de escola e a forma como o indivíduo se relaciona com estes diferentes agentes”.

Uma das iniciativas desenvolvidas pelos profissionais competentes, levado a cabo nas escolas, é o programa Mais Contigo, desenvolvido pela Universidade de Coimbra, na Escola de Enfermagem, que é um programa de intervenção nas escolas, que embora seja mais focado no suicídio, para Ana Xavier demonstra que “cada vez mais há interesse e vontade dos vários profissionais em trabalhar estes aspetos nos contextos escolares.” No entanto, realça que  pode ser feito mais.

É também importante que os professores estejam atentos pois podem “sinalizar e ajudar”. Alertar para a necessidade de intervenção psicológica é prioritário: “haver o maior número de psicólogos no contexto escolar que possam prevenir e intervir neste tipo de dificuldade”. Não só importa alertar mas “aplicar programas de prevenção nas escolas” para que o assunto seja abordado de forma a “desmistificar mitos relacionados com os comportamentos autolesivos” que estigmatizam a pessoa acabam por fazê-la sentir-se posta de parte. É “um problema que necessita de ajuda e de compreensão dos outros, não de estigmatização”, adverte Ana Xavier.

“É um problema de todo o meio que está envolvido”

Patrícia Oliveira, psicóloga da WeCareOn, também defende que a família é muito importante e que tem que ser um suporte, “um alicerce”, mas apenas se for uma família funcional. Muitas vezes a própria família é a causa pela qual se automutilam, seja por um divórcio mal resolvido ou outro tipo de confusão em casa.

Os adolescentes tentam esconder ao máximo, principalmente da família “porque têm medo, têm vergonha, sabem como os pais vão reagir”. A partir do momento em que se toma conhecimento do comportamento do adolescente o problema deixa de ser só dele, “é um problema de todo o meio que está envolvido”.

Para além do apoio dado pela família no tratamento, cabe-lhe também detetar o problema, que se expressa através de sinais como o “comportamento da pessoa”, o facto de “andarem no verão com mangas compridas”, “o afastamento de tudo o que é social: as saídas com os amigos, as saídas com os familiares” e  “o isolamento no quarto”.

No caso dos amigos, é difícil detetar pois um adolescente que se automutila não verbaliza os seus problemas. “Por norma vão procurar ajuda pois não sabem como ajudar” por isso quando detetam algum comportamento estranho “avisam outras pessoas, um professor, alguém com que eles mantenham uma relação estável, significativa para poder ajudar o colega”, reconhece a psicóloga.

O papel da escola revela-se essencial pois passa a ser da sua responsabilidade a comunicação da situação: “o professor quando confrontado com tal problema deve avisar os pais”. Na opinião da psicóloga, a primeira pessoa com que devem falar é o adolescente pois caso contrário este “pode deixar de ver o professor como um aliado, mas sim como alguém que lhe tramou a vida”. Acrescenta ainda que a maior parte das escolas atualmente têm um psicólogo.

“Nas escolas que têm os Serviços de Psicologia, estes adolescentes têm apoio”

Vera Lúcia, psicóloga na Escola Secundária de Amarante, revela que na sua experiência os jovens são encaminhados para o seu consultório através do incentivo de amigos, colegas e/ou professores. Normalmente o adolescente “considera que é um problema seu e que ninguém o poderá ajudar.”

Tratando-se ou não de um número inflacionado, Vera Lúcia também confirma que as raparigas são quem mais recorrem à sua ajuda. Aliás, a psicóloga afirma só ter recebido raparigas com problemas de automutilação.

A psicóloga explica que “na fase da adolescência acontece por vezes como uma chamada de atenção, mas também pode ser indicador de um quadro depressivo que precisa ser devidamente analisado”. Afirma também que “os que praticam estes atos acreditam que ao fazerem isso estariam a aliviar uma dor que é emocional.”

Quanto ao apoio dos amigos e da família Vera Lúcia considera fundamental e que é necessário que os pais estejam envolvidos no processo terapêutico, colaborando “com o profissional na resolução do problema.“ É natural que os amigos queiram ajudar “no entanto, têm os seus limites. Deverão sensibilizar o adolescente/jovem a procurar ajuda de um profissional.”

Segundo a psicóloga, normalmente, quando o adolescente “inicia o acompanhamento psicológico, a família não tem conhecimento da situação de automutilação. Quando vem a saber, ficam incrédulos pois nunca se tinham apercebido de nada.” É importante para o psicólogo ter noção disto, de modo a perceber a “dinâmica familiar”.

Para Vera Lúcia, as redes sociais “poderão em alguns casos incitar os adolescentes na procura e manutenção destes comportamentos de automutilação.”

Nas escolas “é importante que não só os professores, como também os auxiliares de ação educativa e outros próximos dos adolescentes consigam identificar estes comportamentos e os encaminhar para os profissionais.”

Na opinião da psicóloga “nas escolas que têm os Serviços de Psicologia, estes adolescentes têm apoio”.“Nas escolas há todo um trabalho que estes serviços fazem com os professores a fim de os alertar para estas situações”, reforça.

 

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