Causa algum espanto que hoje as rádios produzam vídeos, disponibilizem fotogalerias ou façam diretos através do Facebook. A rádio é som e pensar em algo diferente há uns anos atrás seria simplesmente absurdo. Mas, tal como outros meios de comunicação, a rádio foi obrigada a reinventar-se uma vez mais. Agora a motivação já não é a ameaça da televisão, como décadas antes. No século XXI, a reinvenção da rádio passou (ou passa ainda) pela introdução de uma expressividade que não está no seu código genético. A rádio é som. Mas, ainda que ele continue lá e tenha um papel relevante na produção dos conteúdos, já não é possível conceber uma empresa de radiodifusão sem que esta esteja também presente nas redes sociais, produza conteúdos em vídeo, interaja em permanência com os seus ouvintes.
Mas, para lá chegar, a rádio passou por um processo de transição interessante que tem implicado a modificação de perfis dos seus profissionais, de rotinas e modos de produção.
A cobertura jornalística na rádio de um grande acontecimento já não fica circunscrita à sua emissão sonora. Ela coexiste com uma abordagem multimédia e multiplataforma. Mas, para que isso possa acontecer, é necessária a apropriação destes modelos por parte de todos os profissionais, incluindo, e sobretudo, os jornalistas.
Apesar de frequentemente apontada como um meio esquecido, a rádio procura manter-se viva num ecossistema mediático dominado pela imagem. E, sem termos dado conta, olhamos para os números que nos dizem que a rádio continua resiliente. Continuamos a escutá-la. À velha rádio que agora combinamos com novos modelos, como seja o podcast.
E este é o principal desafio para o jornalismo radiofónico: combinar a competência, a narrativa e o discurso sonoro com a multiplicidade que caracteriza o ambiente digital. Sem perder o rigor, a exigência e seguir aquilo que o jornalismo dita, enquanto forma de conhecimento do mundo.
Por Luís Bonixe
Professor de Ciências da Comunicação no Instituto Politécnico de Portalegre