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#6COBCIBER: Publicidade disfarçada de notícias?

A fronteira que separa os conteúdos jornalísticos da publicidade é cada vez menor num mundo cada vez mais digital. No segundo e último dia do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo fala-se de conteúdos patrocinados e da publicidade como um modelo de negócio para o jornalismo.

Público, Jornal de Notícias, Diário de Notícias e SIC Notícias são apenas alguns exemplos de jornais ou plataformas jornalísticas digitais portuguesas que disponibilizam conteúdo patrocinado, numa secção à parte das restantes notícias ou não. O tema foi discutido por vários dos oradores da sessão paralela do congresso #6COBCIBER.

O que é conteúdo patrocinado?

O conteúdo patrocinado (em inglês, sponsored contente) ocorre quando uma marca e um meio de comunicação trabalham em parceria e o conteúdo é produzido, publicado e promovido pela publicação nas suas plataformas. A publicidade não ocorre diretamente, mas através de artigos jornalísticos desprovidos de tom comercial e com caráter informativo, útil e interessante para o público-alvo da marca. Aquilo que é publicado assemelha-se ao conteúdo editorial da publicação do jornal online, mas é pago por uma marca e destina-se a promover o seu produto, com maior credibilidade.

Um modelo de negócio rentável

O assunto é global, mas na palestra foi também abordado o caso de Portugal. Ana Isabel Reis e Helena Lima apresentam a perspetiva dos conteúdos patrocinados nos sites de notícias portugueses, como duas das oradoras do painel.

Segundo as oradoras, um dos principais debates na produção mediática prende-se com a credibilidade das notícias e a existência de publicidade como notícia acentua a discussão. Na base está um novo modelo de negócio. Os lucros das formas de publicitação tradicional têm-se deteriorado e os jornais estão à procura de novas formas de financiamento. As marcas aproveitam a fidelidade do público a determinado meio de comunicação social para uma mais rápida e fácil aceitação do conteúdo publicado a seu favor.

Helena Lima e Ana Isabel Reis, professoras na Faculdade de Letras da Universidade do Porto FOTO: Carolina Pereira

Jornalismo versus Publicidade

Helena Lima e Ana Isabel Reis falam também dos perigos da publicidade na divulgação noticiosa. De acordo com as palestrantes, o conteúdo patrocinado assume um formato editorial diferente. No entanto, a semelhança com o formato das notícias normais leva a um maior consumo pelo público, que pode ser induzido a acreditar que está a ler notícias e não publicidade.

No caso português, analisado pelas professoras, as conclusões são positivas. O conteúdo patrocinado está identificado como tal na maioria dos jornais e encontra-se junto às notícias ou numa secção à parte. Os temas mais abordados pela publicidade são saúde, investimento, comida e moda.

Conteúdo patrocinado: sim ou não?

Valdir Ribeiro da Silva Junior, da Universidade de São Paulo e palestrante na sessão, fala da necessidade de definir o branded content no ciberjornalismo. Em causa está a difícil distinção entre o que é informação e o que é persuasão.

Segundo o orador, os consumidores respondem mais negativamente a conteúdo reconhecido como publicidade, porque têm medo de serem enganados. Nestes casos, é adotada uma postura mais cautelosa, crítica e menos confiante.

Uma das vantagens do conteúdo patrocinado é o pouco reconhecimento pelo público, mesmo com a identificação devida. O benefício está nessa falha em identificar a publicidade.

Valdir identifica os argumentos contra e a favor desta problemática. Se por um lado, o conteúdo patrocinado cria um dilema ético ao colocar em causa a transparência da publicidade, e também é visto como conteúdo de qualidade duvidosa, por outro lado, o jornalismo não deve ser apenas restrito a jornalistas e os lucros deste modelo de negócio podem financiar o jornalismo tradicional e dispendioso, como o de investigação.

Valdir Ribeiro da Silva Junior, jornalista e mestrando em Comunicação Social da Universidade de São Paulo FOTO: Carolina Pereira

Para além dos palestrantes referidos, a sessão paralela relativa ao “Ciberjornalismo e Modelos de Negócio” contou ainda com Javier Díaz Noci (Universidade Pompeu Fabra, Barcelona), Elizabeth Saad Corrêa (Universidade de São Paulo), Concha Edo e Matilde Hermida (Universidade Complutense de Madrid).

Os oradores da sessão paralela sobre “Ciberjornalismo e Modelos de Negócio” FOTO: Carolina Pereira

O VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo decorreu nos dias 22 e 23 de novembro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Juntamente com os conteúdos patrocinados, foram debatidos temas como Fake news, clickbait, pós-verdade e muitas outras ameaças ao ciberjornalismo.

 

Carolina Pereira

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#6COBCIBER: o arranque das sessões paralelas

O #6COBCIBER decorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto na semana passada. O painel 1-A contou com três oradores e centrou-se na temática das fake news.

 

As sessões paralelas – afinal, é mesmo isso que o nome indica – do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo funcionam paralelamente ao programa principal. A primeira sessão de comunicações dividiu-se em três painéis, que decorreram simultaneamente, em salas diferentes. O painel 1-A foi o selecionado para ocupar o espaço central do evento.

No início da manhã, o Anfiteatro 2 da Faculdade de Letras já tinha recebido a Sessão de Abertura do Congresso. Esta contou com a presença de Fernanda Ribeiro – Diretora da FLUP -, Elisa Cerveira (CIC:Digital), Helena Lima (Diretora do Mestrado em Ciências de Comunicação), Helder Bastos (Diretor da Licenciatura em Ciências da Comunicação) e Fernando Zamith, membro da Comissão Organizadora do COBCIBER.

Seguiu-se a Conferência de Abertura, que ficou ao cargo de Walter Dean, do Committee of Concerned Journalists (EUA). A temática abordada por Dean foi “The tyranny of ‘hits’ – How an emphasis on big numbers and flawed analytics has changed reporting”.

 

As fake news e a verificação de factos em Espanha

Às 11h15, a moderadora do painel, Ana Isabel Reis, lançou o programa paralelo. O primeiro orador foi Carlos Toural Bran, da Universidade de Santiago de Compostela. A apresentação – “Humor y desinformación – Espacios de creación de notícias falsas, redes sociales y plataformas de verificación en España” – centrou-se num trabalho realizado em conjunto com Ángel Vizoso e Xosé López-García.

Fotografia: Sofia Matos Silva

O discurso do espanhol manteve uma linha de pensamento lógica. Apresentou em que consistem as tão famosas fake news: “false stories that appear to be news, spread on the internet or using other media, usually created to influence political views or as a joke”. Estas são facilmente confundidas com conteúdo noticioso, por apresentarem títulos chamativos, fotografias e a organização de conteúdos.

O fact-checking, segundo Bran, é o mecanismo de proteção adotado pelo jornalismo contra as fake news. O estudo realizado pelo trio de Santiago de Compostela analisou as primeiras 25 verificações de 2018 dos websites MalditoBulo e B de Bulo. Nestas publicações, concluiu-se que as peças das páginas elmundotoday.com, haunoticia.es e 12minutos.com seguem a estrutura e conteúdos de notícias informativas – com a exceção de um pequeno “aviso legal” para a sua natureza humorística/satírica.

Bran seguiu para a enumeração das caraterísticas de cada um dos espaços de verificação, concluindo que o MalditoBulo tem maior impacto, maior capacidade de tormar as suas verificações virais e consegue ser mais conciso, enquanto o B de Bulo consegue uma análise mais profunda e com maior presença de elementos multimédia.

 

A influência das fake news na vacinação contra o sarampo em Portugal

Fotografia: Sofia Matos Silva

A segunda palestra foi a única com uma voz feminina – e com sotaque do Brasil. Tâmela Medeiros Grafolin trouxe um estudo realizado em conjunto com Joaquim Paulo Serra, na Universidade da Beira Interior. Neste, pretendia-se “perceber se as notícias falsas sobre a imunização contra o sarampo afetaram, de alguma maneira, o processo de decisão das famílias em vacinar ou não as crianças”.

Paralelamente, o estudo pretendia verificar quais os elementos das notícias absorvidos pelas famílias, assim como quais as principais fontes de informação sobre saúde. Grafolin abordou  o Modelo Cognitivo Idealizado e a evolução de boato para boato virtual e para fake news – o seu expoente máximo. A definição de fake news dada esteve em sintonia com a do orador anterior – a presente no dicionário de Cambridge (2018).

O contexto da pesquisa foi o do surto de sarampo no norte de Portugal. A investigadora destacou os “112 casos confirmados pela DGS”, a “vacinação não obrigatória do país” e que, dos 112 casos, “apenas 13% não haviam sido vacinados”. Foi feito um questionário de 28 perguntas aos familiares dos alunos do pré-escolar da Covilhã – a amostra foi formada por 31 pessoas.

Em jeito de conclusão, Grafolin defendeu que “as fake news sobre a eficácia da vacinação não são um risco em Portugal”, continuando os meios de comunicação social e os profissionais de saúde a ser os mais recorridos.

 

O universo das fake news satíricas

A ausência de Francisco Gilson Rebouças Pôrto Junior, da Universidade Federal do Tocantins, orador da comunicação “Fake News, profissionalização e comunicação: estudo sobre o efeito da terceira pessoa na atuação jornalística”, levaram à passagem direta da segunda para a quarta – e última – palestra.

Fotografia: Sofia Matos Silva

João Paulo Duque Löbe Guimarães (Universidade de Évora/CEL/c3i) trouxe o tema das “Satirical Fake News”. Em dez minutos, Guimarães forneceu diferentes conceitos de fake news, provenientes de diferentes autores, abordou as várias tipologias e explorou, em particular, as publicações The Onion e O António Maria.

Na sua perspetiva, as fake news podem ter origem em simples erros – sem qualquer intenção de se produzir conteúdo falso -, rumores, teorias da conspiração, sátiras, falsas declarações de políticos e publicações enganosas. Dividem-se em satire, hoax, propaganda e trolling – cada qual com o seu propósito.

No fim da sua apresentação, gerou-se um momento de debate entre o público presente no auditório e os oradores presentes. Para os que permaneceram na sala – e os vários grupos que esperavam à porta o fim da sessão – decorreu a apresentação do estudo ObCiber (colaboração GJOL e COM+ – “O clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro”), com Fernando Zamith (Univ. Porto, Portugal) e Elizabeth Saad Corrêa (Univ. São Paulo, Brasil).

 

O Congresso prolongou-se pelo resto do dia, assim como pelo dia seguinte (23). As “ameaças ao ciberjornalismo” – a temática desta sexta edição – foram abordadas em conferências, debates e nas 53 sessões paralelas. Ainda houve tempo para atribuir os tão aguardados Prémios de Ciberjornalismo 2018.

 

Sofia Matos Silva (turma 1)

Clickbait discutido no VI Congresso de ciberjornalismo

A ameaça do clickbait, no contexto português e brasileiro foi abordada no VI Congresso Internacional de ciberjornalismo que se realizou no dia 22 de novembro, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Na sessão de “Estudo ObCiber (colaboração GJOL e COM+): “O clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro” foi analisado este tema e as diferenças existentes entre Portugal e o Brasil.

Os investigadores que apresentaram o estudo, Fernando Zamith e Elizabeth Saad, realizaram um trabalho que, ao todo, contou com 28 investigadores.

Através deste estudo, os pesquisadores definiram o clickbait como “uma estratégia de configuração e narrativa de um conteúdo em Mídias digitais com o objetivo de atrair a atenção do usuário para o clique em um link”.

O estudo teve como base a questão: “Qual o peso do clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro de informação geral e de âmbito nacional?”.

Para esta questão foram apresentadas quatro hipóteses e foram definidos o objeto, as unidades, a amostra e a metodologia, que levaram os investigadores até às respostas para as hipóteses anteriormente mencionadas.

A recolha de dados foi feita em 18 cibermeios em ambos os países. Portugal em todas as categorias – exagero, engano, especulação, publicidade e entretenimento – obteve níveis mais baixos do que o Brasil.

No final, a resposta à questão supracitada foi que a influência do clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro é “muito ligeira, um pouco superior no Brasil” e as hipóteses referidas foram infirmadas e verificadas.

O clickbit mostrou ser superior nos conteúdos “mais lidos”, seguido dos conteúdos em “destaque” e, por último, nos conteúdos do “facebook”.

Segundo este estudo, os cibermeios analisados correspondem, na sua maioria, a títulos seguros que se preocupam em manter a credibilidade junto do público e, por isso, não foram encontrados níveis de clickbait tão elevados.

Mariana Barreto Teixeira    Turma 2

#6COBCIBER: as ameaças ao jornalismo que surgem de dentro para fora

A sexta edição do Congresso Internacional de Ciberjornalismo aconteceu nos dias 22 e 23 de novembro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como parte da programação do segundo dia, o professor Manuel Pinto abordou o tema “Ameaças ao (ciber)jornalismo que vêm do próprio campo jornalístico” em conferência.

Manuel Pinto na conferência “As ameaças ao (ciber)jornalismo que vêm do próprio campo jornalístico”. Foto: Ana Isabel Reis

Em tempos de fake news, conteúdos patrocinados, publicação amadora e redes sociais, para Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, é um erro pensar que os problemas do jornalismo se resolverão apenas por meio do próprio jornalismo. Segundo o orador, falta um posicionamento de defesa e preservação por parte dos profissionais, que por vezes, exercem seus papéis pela ótica do entretenimento e do lucro, e assim, contribuem a colocar a credibilidade de suas profissões em questão.

Ao abordar o jornalismo cidadão como uma das ameaças, o professor afirmou que “é preciso separar o trigo do joio, o que é jornalismo e o que não é”. E complementou a dizer que o “fazer jornalístico” é privilégio daqueles que vivem para o ofício. Cabe ao jornalista o papel de editar, buscar a verdade a todo custo e investigar com competência, tempo e dedicação.

Manuel também pontuou que essas ameaças podem abrir oportunidades para novas questões. Segundo o professor, para contorná-las é importante enxergar a sociedade como sujeitos e não como audiências, se preocupar com a transparência e refletir para além do jornalismo, a conhecer outras áreas e a dialogar com a sociedade.

Como resultado positivo da preocupação dos jornalistas diante dessas circunstâncias, o conferencista mencionou a iniciativa do Sindicato dos Jornalistas que consiste em introduzir a literacia mediática na educação dos adolescentes. O projeto foi apoiado pelo Ministério da Educação e será implementado inicialmente em sete escolas do ensino secundário.

Jessica Santos

Turma 4

#6COBCIBER: “Creio que o jornalismo se vai salvar”

A afirmação, em jeito de crença, é do professor e investigador Manuel Pinto, da Universidade do Minho, que foi um dos destaques do último dia do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo.

A palestra deste orador tinha como título “As ameaças ao (ciber)jornalismo que vêm do próprio campo jornalístico” e a sua abordagem propunha olhar e descobrir que portas e caminhos é que estas ameaças abrem e que outras questões levantam.

Depois de classificar com um erro “pensar que os problemas do jornalismo se resolvem só no jornalismo”, Manuel Pinto considerou como a primeira ameaça o “jornalismo do cidadão”. Isto é, os blogues e toda a sua informalidade que puseram em causa a linguagem e credibilidade jornalísticas.

Para combater estes problemas e outros mais recentes, como as fake news, o orador apresentou e desenvolveu o conceito de literacia mediática, que consiste na aproximação das crianças em idade escolar à veracidade desejável no jornalismo.

A ideia foi aprovada no Congresso de Jornalistas Portugueses por unanimidade e, depois de apresentada ao Ministério da Educação, avançará em janeiro do próximo ano numa escola de cada distrito. Este projeto piloto beneficia ainda, na opinião de Manuel Pinto, da boa consideração em relação aos profissionais do jornalismo em Portugal.

Por fim, o orador alertou para o facto de a informação estar descredibilizada e aponta como solução o valor da transparência do jornalista. Isso passa, na sua opinião, pela eliminação da distância entre o jornalista e o seu público e deixar de o encarar como audiência, ouvindo todos os sectores.

Diogo Gonçalves

Publicidade e jornalismo – uma coexistência possível?

Quem escreve os conteúdos patrocinados? Quais as vantagens e desvantagens deste fenómeno? É necessário identificar os textos pagos? Estas são apenas algumas das questões abordadas no segundo dia do #6COBCIBER, sexta-feira, onde se discutiu as ameaças ao ciberjornalismo.

“O jornalismo moderno não sobrevive sem a publicidade”. As palavras são de Helena Lima, professora universitária, e uma das oradoras do Congresso Internacional de Ciberjornalismo, #COBCIBER, que decorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Entre as ameaças ao ciberjornalismo, abordou-se a questão dos conteúdos patrocinados e da sua crescente convivência com o mundo jornalísitico. Segundo Helena Lima, “desde que as notícias passaram para os meios digitais, este debate tem sofrido grandes proporções na medida em que as fronteiras entre os conteúdos jornalísticos e não jornalísticos têm sido cada vez menores.”

 O que é o conteúdo patrocinado?

“Sponsored By” nos media internacionais, ou “Conteúdos Patrocinados” nos media portugueses, são expressões cada vez mais recorrentes nos sites de órgãos de informação. Mas afinal, de que se tratam? De acordo com Valdir Ribeiro da Silva Júnior (Universidade de São Paulo), “o conteúdo patrocinado é uma mensagem persuasiva que se tenta assimilar ao conteúdo que não é patrocinado.” Por outras palavras, este tipo de conteúdos assume forma de notícia, e promove produtos ou mensagens patrocinadas por uma marca, através de sites noticiosos. O objetivo é permitir que a marca em questão se associe a um meio informativo credível e com grande visibilidade.

Valdir Ribeiro da Silva Júnior estuda jornalismo na Universidade de São Paulo

A emergente adaptação de conteúdos patrocinados ao jornalismo tem gerado sérios debates relativos à deontologia profissional: estamos ou não perante publicidade mascarada? Os conteúdos continuam a ser jornalísticos ou são agora meramente persuasivos?

 

Uma coexistência atribulada

Apesar da crescente coexistência entre o jornalismo e a publicidade, “a relação entre ambos não é pacífica”, afirma Ana Isabel Reis, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Se o jornalismo é uma área informativa e estritamente factual, estará a mudar o seu gene ao abraçar a publicidade, um campo com fins comerciais e persuasivos? De acordo com Helena Lima, “pode haver a coexistência de ambos os campos, desde que os conteúdos patrocinados estejam devidamente identificados, e não se confundam com matéria jornalísitica.”

Quanto ao processo de escrita de um conteúdo patrocinado, outra questão referida, Valdir Ribeiro da Silva Júnior não tem dúvidas quanto ao impacto que a pessoa que escreve os textos pagos acaba por ter no discurso utilizado, “se quem escreve é um profissional de marketing, o discurso será persuasivo. Se quem escreve é um jornalista, o discurso será factual.”

 

Necessidade de identificação

Ana Isabel Reis admite que “os leitores têm o direito de saber se o que estão a ler é ou não conteúdo pago.”

Helena Lima (à esquerda) e Ana Isabel Reis (à direita) são professoras na Faculdade de Letras da Universidade do Porto

“O facto do conteúdo patrocinado se assimilar ao não patrocinado faz com que os leitores muitas vezes não reconheçam que estão a consumir publicidade. E é aí que surge um problema grave” refere Helena Lima. De acordo com a oradora, um estudo realizado em 2016, verificou que 23% dos leitores não têm consciência de que estão a ler conteúdo não jornalístico, algo que Helena Lima considera “preocupante”. É aqui que surge a questão da transparência. “No caso português, a fronteira entre publicidade e jornalismo está legalmente definida. Os conteúdos patrocinados têm de ser devidamente identificados, tanto a nível de texto como a nível gráfico”, acrescenta.

 

Os argumentos contra e a favor

O conteúdo patrocinado no panorama jornalístico é um tema ainda bastante controverso. Se por um lado há quem considere que quem produz conteúdos editoriais não pode ser a mesma pessoa que produz os conteúdos pagos, há também quem pense que um jornalista não tem de se restringir a apenas uma função. Valdir Ribeiro da Silva Júnior refere alguns argumentos a favor do conteúdo patrocinado, e de quem o produz, “as técnicas do jornalismo não são necessariamente restritas a jornalistas. Além disso, as empresas continuam cada vez mais a investir em conteúdos patrocinados, e esse investimento pode ser usado para financiar jornalismo de investigação tradicional, que é muito importante, mas também muito difícil de financiar.” Contudo, o orador tem ainda em conta possíveis desvantagens da coexistência da publicidade e do jornalismo, “temos de pensar até que ponto a marca que pagou pelo conteúdo tem influência no resultado final e na mensagem que foi passada”, e admite que “esta é possivelmente a maior ameaça deste fenómeno emergente”.

O Congresso Internacional de Ciberjornalismo decorreu entre e quinta e sexta-feira na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Além dos conteúdos patrocinados, foram abordadas várias ameaças ao ciberjornalismo, como Fake News, Clickbait, Pós-Verdade, entre outros.

Catarina Fonseca, Turma 2

Automatismo e algoritmos no Congresso Internacional de Ciberjornalismo

A decorrer no dias 23 e 24 de novembro, o VI Congresso internacional de Ciberjornalismo trouxe à Faculdade de Letras da Universidade do Porto debate sobre as ameaças ao Ciberjornalismo. Numa das sessões paralelas, quatro comunicações exploraram o uso do automatismo e dos algoritmos.

O uso do automatismo e algoritmos no ciberjornalismo é cada vez uma prática mais comum no ciberjornalismo, não só pela escrita robótica, como na geração automática de conteúdos, tratamento de dados e eficiência na recolha dos mesmos. Vantagens e desvantagens e casos práticos, os oradores põem o jornalista como mediador no usos dos mesmos.

Tiago Devezas apresentou um trabalho desenvolvido com Sérgio Nunes, um algoritmo que automaticamente seleciona o conteúdo noticioso baseado nas nossas preferências. O algoritmo não é de acesso público e foi criado com base num inquérito, de modo a hierarquizar o que os utilizadores consideram mais importante.  O  orador alerta para o facto de muitas vezes os utilizadores não terem noção de que os algoritmos existem,  que são ocultados de modo a não diminuírem a experiência do utilizador. Tiago Devezas afirma que os algoritmos como o criado podem, porém evitar a sobrecarga dos jornalistas.

Apesar da utilidade do automatismo e algoritmos e a sua crescente implementação, que responde à enorme quantidade de informação simultânea na internet e o crescente número de usuários, Laurence Dierickx, docente na  Université libre de Bruxelles e conferencista no congresso, diz que os limites a posta em prática destes dois conceitos devem ser impostos pelo próprio jornalista na prática da sua profissão.

A implementação dos automatismos é também relevante n área do jornalismo desportivo. José Lui Rojas Torrijoas salienta a disponibilidade de dados, o livestream e o acompanhamento cíclico dos eventos como oportunidades importantes para o ciberjornalismo desportivo, proporcionadas pelo automatismo. O professor da  Universidade da Catalunha apresentou um estudo elaborado sobre o Heliograf, robô usado pelo o The Washington Post para coberturas jornalísticas de eventos desportivos. Questões como a diminuição dos jornalistas em função dos robôs surgiram, mas o orador explica que os jornalistas teriam mais tempo para pesquisa e seria um incentivo competitivo para melhorar a qualidade dos seus trabalhos.

Resultado de imagem para heliograf washington post

Trabalho desenvolvido pelo Heliograph foi significativo nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro

Com a Beta pode estabelecer uma conversa ou debate à cerca dos temas relacionados com feminismo

 

 

Carolina Braga, apresentou um artigo desenvolvido com Gean Azamora, sobre a Beta. Robot que opera através de uma página de Facebook, aglomerando conteúdo noticioso feminista. Apesar da utilidade que este tipo de automatismo pode ter utilidade de modo a fazer pressão na resolução de problemas, porém a oradora alerta para o facto de muito do conteúdo difundido pela página não serem conteúdo jornalístico. O que pode levara a vários problemas.

O automatismo e os algoritmos podem ser vistos como vantajosos, mas também como ameaças ao ciberjornalismo. No  VI Congresso de Ciberjornalismo, ficou mais uma vez em destaque o equilíbrio e o  papel do jornalista como mediador  essencial.

 

Marta Tuna

Turma 3

#6COBCIBER: Clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto acolheu na passada quinta feira, dia 22 de novembro, o VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo. Um dos principais temas que foi debatido, durante uma das palestras, sobre as ameaças ao Ciberjornalismo, foi o Clickbait.

A sessão, que teve inicio às 12.45h no auditório 2 da FLUP, contou com o reforço de uma profissional da área, de outro continente. Elizabeth Saad Correia, uma das maiores especialistas brasileiras. A palestrante veterana juntou-se a Fernando Zamith, da Universidade do Porto, para apresentar um estudo que tem vindo a ser desenvolvido, num intercâmbio entre Portugal e o Brasil.

VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo: Clickbait por Fernando Zamith e Elizabeth Saad. Foto Miguel Silva

Num trabalho já cimentado e com a colaboração de 28 investigadores, os palestrantes começaram por contextualizar todo o processo e questão que serviu de ponto de arranque para esta análise: “Qual o peso do clickbait no ciberjornalismo português e brasileiro de informação geral e de âmbito nacional”

Numa explicação pormenorizada, ambos os oradores abordaram a incidência do clickbait através de valências muito especificas. O exagero, o engano, a especulação, a publicidade e o entretenimento foram algumas das componentes elevadas por Fernando Zamith e Elizabeth Saad.

Ainda no contexto de análise, ambos declararam que a pesquisa foi feita através de órgãos de comunicação portugueses e brasileiros. Ao nível português, a RTP, SIC, TVI, Rádio Renascença, TSF, I, Sol, …, foram alguns dos meios incluídos no estudo. Já do outro lado do oceano, a escolha recaiu sobre órgãos como a Band, UOL, Veja.com, …

Foto Miguel Silva

Um dos principais problemas apontados foi a coincidência do estudo com o decorrer do campeonato da Copa do Mundo de Futebol. A data de análise foi uma escolha difícil, pois queriam ser influenciados com o conteúdo futebolísticos do mundial. Para tal, confessaram ter acordado com dia 29 de junho para a analise, uma vez que não houve qualquer disputa na referida data.

Ainda que não esteja terminado, e que surjam ainda questões por responder, os palestrantes concluíram que na maioria dos parâmetros, os valores brasileiros foram ligeiramente superiores aos portugueses.

Elizabeth terminou reforçando o “grande diálogo e inter-ajuda produtiva entre toda a equipa”, reforçando que esse foi um fator essencial para o desenvolvimento deste projeto.

 

Miguel Silva

turma 1

#6COBCIBER: O jornalismo do século XXI e as redes sociais

É cada vez maior o fluxo de notícias, que nos acompanha diariamente. Os telemóveis, computadores ou tablets, permitem-nos um rápido e constante acesso à informação jornalística através das redes sociais.

É entre tweets e insta stories que os órgãos de comunicação e os jornalistas procuram alcançar a rotina do público. Na sessão paralela “Ciberjornalismo e as Redes Sociais”, inserida no 6º Congresso do Observatório do Ciberjornalismo (que decorreu na passada quinta-feira, na FLUP), os investigadores conferenciaram acerca do impacto destas plataformas na realidade informativa do século XXI.

Sessão Paralela de 22 de Novembro de 2018, com a moderação de Paulo Frias Foto: Inês Nunes

Jorge Vázquez-Herrero iniciou a sessão alertando para a existência de “novos modelos de jornalismo participativo”, principalmente com o surgimento das redes sociais. O orador, professor e investigador de Novos Media na Universidade de Santiago de Compostela, explicou que se tratam de “microformatos, nomeadamente audiovisuais, autónomos e concretos, desenhados especificamente para redes sociais”.

Nesta linha de raciocínio, Vázquez-Herrero, apresentou o seu estudo em conjunto com Sabela Direito-Rebollal e Xosé López-García: “Uso de Instagram Stories en los medios: volumen y patrones de publicación” (“Uso dos Instagram Stories nos média: volume e padrões de publicação”), que visa avaliar a utilização da funcionalidade das histórias do Instagram para o relato noticioso.

Os insta stories são uma potencialidade desta rede social. Com a duração de apenas 24 horas e com destaque no topo do feed de publicações, já conquistaram mais de 400 milhões de utilizadores ativos diariamente, em menos de dois anos.

As histórias do Instagram foram lançadas a 2 agosto de 2016. Hoje, alcançam milhões de cibernautas que se mantêm ativos ao longo do dia.

O estudo de caso do professor galego envolveu a análise dos perfis de Instagramde 60 órgãos de comunicação social, entre os quais: Le Monde, El PaísPoliticoThe New York TimesThe Guardian ou BuzzFeed. A investigação tinha como objetivo percecionar a forma como os média exploraram as stories, nomeadamente nos conteúdos para telemóveis, que à partida visam ser “breves e visuais”, explicou Herrero.

Após a recolha de dados, concluiu que os temas predominantes eram o desporto, as figuras públicas e algumas questões sociais, o que no seu ponto de vista, são os temas que apelam a um público mais vasto nas redes sociais, atraindo-os ao site oficial do jornal. Salientou ainda que apenas 5% dos insta stories apresentavam reportagens.

 

 CR7 e os 75,5 milhões de seguidores no Twitter

Para Orge Orellano, investigador da Universidade do País Basco, as redes sociais são uma “nova forma dos média comunicarem com o público”. As plataformas online alteraram o panorama geral da informação, também no desporto. “Futbolistas y redes sociales. ¿Para qué y con quién utiliza Twitter Cristiano Ronaldo?” (“Futebolistas e redes sociais. Para quê e com quem Cristiano Ronaldo utiliza o Twitter?”) foi um estudo concretizado pelo jornalista, de maneira a descodificar as estratégias de comunicação utilizadas no campo desportivo.

Orellano mostra que em 2018, os jogadores e os respetivos clubes já vêm as redes sociais como uma “ valiosa fonte de interação não só entre jogadores, mas também para os fãs e jornalistas, que têm uma relação mais próxima com os atletas”.

Pela grande exposição mediática de que é alvo em todo o mundo, Cristiano Ronaldo foi o eleito para o estudo. O investigador esteve atento à conta de Twitter do jogador português (que conta com milhões de seguidores), de maneira a estabelecer padrões de comunicação nas publicações efetuadas.

Orge Orellano concluiu que quase metade dos tweets (40%) eram referentes a marcas como a Nike, Fly Emirates, Herbalife, Linic ou American Tourister, o que mostra o papel preponderante da publicidade na página do craque.

As “empresas e a publicidade desempenham um papel bastante grande nas contas dos jogadores” salientou o investigador. Referindo também o uso de hashtags, responsável por um “melhor engajamento do público” e consequentemente maior rentabilidade monetária para as empresas.

Já para a manutenção da imagem do futebolista, Orellano destacou a grande importância das publicações alusivas a momentos pessoais, assim como a sua colaboração com várias associações ou instituições humanitárias.

 

As narrativas jornalísticas audiovisuais no Instagram

Por fim, Paulo Cajazeira da Universidade Federal do Cariri apresentou o seu estudo “As narrativas ao vivo do jornalismo audiovisual no Instagram” que aborda a forma como se pode utilizar o perfil desta rede social, sob forma de representação jornalística.

Cajazeira compara as redes sociais a “diários audiovisuais que vamos escrevendo no nosso dia-a-dia”, aos quais a nossa audiência tem acesso. Assim, para o estudo destas narrativas, o professor elegeu um focus group: 4 jornalistas de vídeo de uma rede de televisão brasileira, a Global News.

Desta forma analisou os  perfis de Instagram de Carolina CimentiMurilo SalvianoSérgio Aguiar e Flávia Oliveira quanto ao número de seguidores, bem como a sua idade e género, à frequência de publicação, e ao conteúdo jornalístico presente.

80% da informação presente no perfil de Instagram do jornalista Sérgio Aguiar é de caráter profissional

Paulo Cajazeira concluiu que apenas 10% dos seguidores, acompanhavam realmente todas as publicações de cada uma das contas, o que indica que “as narrativas audiovisuais ainda estão a dar os primeiros passos”.

Inês Nunes

Desinformação: será que andamos todos assim tão bem informados?

O jornalismo online é cada vez mais o meio jornalístico de maior relevo. As novas tecnologias permitem a atualização constante e o saber imediato que caracterizam esta geração. Mas será que podemos acreditar que toda a informação é correta? Não vivemos antes na era da desinformação? A discussão é trazida pelo #6COBCIBER.

O crescimento do ciberjornalismo traz consigo desafios que andam a deixar a cabeça dos jornalistas em água. Um grande número de jornais a nível mundial já identificou  e alertou para a desinformação como uma ameaça atual, a par das fake-news. Esta ameaça tem vindo a ganhar terreno e põe em risco o jornalismo como o conhecemos.

A desinformação induz no leitor ideias falsas quanto a uma determinada realidade. Numa era em que a publicidade está no centro de toda a informação que consumimos, a desinformação surge com o objetivo de manipular o leitor e as suas opiniões em relação ao mundo que o rodeia.  Alguns dos métodos que a suportam são a supressão de informação, a modificação do sentido da informação, o uso de “pressupostos”, a associação a fenómenos distintos e descontextualizados, a generalização  ou a dissuasão.

A difusão de mensagens falsas e de informação manipuladora causa um caos na internet e consequentemente na sociedade em que vivemos. A desinformação coloca em causa uma questão muito importante: a da confiança. Até que ponto o que lemos é verdadeiro? Como distinguir a informação da tal desinformação? E, acima de tudo, qual a solução para tudo isto?

As respostas não são ainda certas mas os riscos estão bem à vista. Por ser uma questão séria, a desinformação é um dos temas-destaque do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo, a realizar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 22 e 23 de novembro. Pode ler-se mais sobre o evento e respetivo programa aqui.

Maria Inês Pinto da Costa, turma 1