#6COBCIBER: “Pela primeira vez o jornalismo tem, ao segundo, o retrato de quem está a ver o quê e durante quanto tempo”

Miguel Soares, Pedro Miguel Santos, Sérgio Sousa, Sofia Branco e o moderador Luís Santos
Foto: Ana Isabel Reis

Principais ameaças ao Ciberjornalismo, foco no negócio prejudicial ao trabalho jornalístico, multicionacionais “ladras” de conteúdo e fake news. Estes foram os assuntos em debate na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no primeiro dia do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo.

O que afeta o Ciberjornalismo atualmente?

Miguel Soares acredita que a ameaça mais evidente ao Ciberjornalismo é a preocupação em chegar ao maior número de pessoas possível. Os jornalistas têm desde sempre necessidade de comunicar com a audiência mas, apesar disso, o editor e coordenador das redes sociais da Antena 1 acredita que com a Internet e com as redes sociais essa preocupação se tornou quase obsessiva.

Já para o diretor do projeto de media independente, Fumaça, o principal problema traduz-se na falta de tempo. Pedro Miguel Santos sente que esta escassez influencia “a forma como pensamos, como trabalhamos, como fazemos a verificação dos factos”.

“Pela primeira vez o jornalismo tem, ao segundo, o retrato de quem está a ver o quê e durante quanto tempo”, o que, para Sérgio Sousa, parece positivo. Apesar disso, o diretor do V Digital acredita que, se os jornalistas se tornarem hipnotizados pelos números, podem perder o foco e a estratégia que normalmente seguiriam. Na sua opinião, a preocupação com o dinheiro por parte dos profissionais também se revela como um problema.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas prefere focar-se apenas em Jornalismo, acreditando que a profissão deve ser vista de igual forma, independentemente do meio em questão. Posto isto, para Sofia Branco a principal ameaça é a precariedade e dá como exemplo o facto de um terço dos jornalistas em Portugal não terem vínculo laboral.

Qual o papel do negócio no jornalismo?

Miguel Soares acredita na separação. “É normal pensar no dinheiro”, mas isso não deve desviar o jornalista de realizar o seu trabalho da melhor forma possível. Pessoalmente, o jornalista da Antena 1, diz nunca ter feito nada por pressões económicas e políticas, apesar de já as ter sentido.

“O Fumaça não tem negócio” e, para Pedro Miguel Santos, isso ajuda na transparência. Considerando-se como uma espécie de associação sem fins lucrativos, a redação deste projeto é quem assume todo o controlo, sem preocupação com lucro, mas apenas com valores que lhes permitam fazer jornalismo.

Na opinião de Sérgio Sousa, “o objetivo dos criadores de conteúdo é serem os mais lidos/ouvidos/vistos e isso vai traduzir-se em dinheiro”. A dependência editorial traduz-se então em dependência financeira.

Já para Sofia Branco, “o negócio tem sido mal gerido” e dá como exemplo multinacionais, como a Google e o Facebook, que “roubam” conteúdos, aumentando posteriormente os seus lucros. Também refere como exemplo um diretor de informação que passe a fazer parte da administração, que acaba por ser vítima de influências, e diz que “a partir daí tudo muda”.

Quais são então os problemas?

Miguel Soares acredita que houve uma mudança drástica no que diz respeito ao consumo de informação e que isso se traduz na necessidade de formas diferentes de chegar aos leitores/clientes. Como a informação pode não estar a ser consumida da melhor forma, o editor e coordenador das redes sociais da Antena 1, classifica os jornalistas como “escravos da credibilidade e não do tempo”.

Pedro Miguel Santos foca-se na publicidade e questiona se a RTP pode ser menos isenta por ter publicidade. Para o diretor do Fumaça, projeto livre de publicidade, é necessário discutir o financiamento público. Dá o exemplo de vários media, incluído aqueles que são financiados pelo Estado, que priorizam um acompanhamento diário do Presidente da República, quando esse dinheiro poderia ser investido na realização de grandes reportagens.

As fake news são um fenómeno recente?

Quando questionado sobre o Polígrafo, o novo projeto português de fact-checking, Miguel Soares refere que as notícias falsas sempre existiram, apesar de agora serem aplicadas de outra forma. A Internet e as redes sociais continuam a estar envolvidas, nomeadamente na rapidez e na eficaz circulação de notícias.

Para Sofia Branco, o fact-checking generalizado devia ser feito nas redações. A presidente do Sindicato de Jornalistas acredita que “sempre houve e vai haver pirómanos, e sempre houve e vai haver quem se quer queimar”, considerando que os leitores deviam ter um maior cuidado no consumo da informação.

Inês Alves Vieira