Que problemas enfrenta o Ciberjornalismo em Portugal?

Fotografia por: Rafaela Lobo

“Não há foco no jornalismo”, afirma Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas, já próximo do final do primeiro dia do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo. Esteve em debate o tema que dá mote ao Congresso, as “Ameaças ao Ciberjornalismo”, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Miguel Soares, editor-coordenador das redes sociais da Antena 1, aponta como um dos problemas a obsessão das redações em chegar ao maior número de pessoas , que pode tornar-se contraproducente.

Por outro lado, Pedro Miguel Santos, diretor do Fumaça, culpa a falta de tempo, que traz consequências na forma como se pensa e trabalha.

Sérgio Sousa, diretor do V Digital, fala do retrato que o jornalista tem hoje, ao segundo, de quem está a ver e o que está a ver. Destaca que, se não se tiver cuidado, pode com isso perder-se o foco do jornalismo. Além disso, refere que o dinheiro envolvido também tem a sua influência, tal como em outros meios.

Já Sofia Branco salienta a situação de precariedade que os jornalistas enfrentam, chamando a atenção para o facto de um terço dos profissionais trabalharem como freelancers. Conclui que, por esse motivo, o foco deixa de estar no jornalismo, afetando-se a ética que é um princípio fundamental.

Como resolver estes problemas?

Esperam-se as soluções vindas dos jornalistas e não “dos senhores com os salários grandes”, refere a presidente do Sindicato dos Jornalistas. O setor enfrenta dificuldades e é preciso arranjar soluções adaptadas aos tempos atuais.

“Nunca fiz um trabalho com condicionantes, pressões de acionistas ou políticos”, afirma Miguel Soares, ressalvando que na rádio não se sente tanto essa pressão, salvo em casos excecionais. Pensa que a solução passa por se procurar uma atividade que chegue ao recetor de forma viável, de forma a haver independência.

Pedro Miguel Santos fala precisamente do projeto que lhe diz respeito, cujo “modelo de negócio é não ter negócio”, comparando o Fumaça a uma ONG. O projeto é financiado com bolsas de fundações como a OSF, Open Society Foundations, e a Gulbenkian. Contudo, acredita que um dia vai ser possível pagar o que fazem com as contribuições que recebem”, salientando que para tal é fundamental haver transparência.

Para o presidente do Fumaça “se se definirem prioridades é possível mudar algo no jornalismo”, dando o exemplo de equipas que andam todos os dias atrás do Presidente da República, gastando dinheiro que podia ser canalizado, por exemplo, para uma grande reportagem.

O jornalismo e o negócio

O objetivo dos meios é ser o mais ouvido ou o mais lido. “Só teremos independência editorial se tivermos independência financeira”, são as palavras de Miguel Soares.

Sofia Branco salienta a dificuldade que alguém que é diretor de informação e simultaneamente administrador encontra em não ser influenciado na tomada de decisões. Há uma confusão de funções. Assim, o jornalismo não pode ser alheio ao negócio e, se o negócio é mal gerido, acaba por culpar-se os jornalistas.

No que toca a esta relação, entre o jornalismo e o negócio, questiona-se o papel que o Estado devia ter, além da sua influência no serviço público de televisão ou rádio. Também o papel de multinacionais como a Google ou o Facebook, que “roubam” os conteúdos produzidos pelos jornalistas deve ser questionado.

Para Miguel Soares, o Estado deve assegurar pelo menos condições para se fazer bom jornalismo.

Como assegurar a verdade?

Hoje em dia consome-se informação como nunca mas é importante pensar-se se esta informação está a ser consumida da melhor forma. A última parte do debate destinou-se às perguntas da audiência.

Começou-se pelo Polígrafo, o novo projeto português direcionado para a verificação dos factos.

Os participantes do debate salientaram que esse “fact-checking” é inerente à prática do jornalismo. Apesar disso, Sofia Branco mostrou-se preocupada com o facto de isso poder não acontecer, devido à emergência que as redações sentem para a fazer chegar a notícia o mais rapidamente possível ao público.

Miguel Soares salienta que a diferença entre o jornalista e o cidadão comum passa pela credibilidade, pelo que as pessoas não devem por em causa aquilo que o jornalista diz. Apesar disso, a credibilidade tem de se conquistar, o que implica que as notícias sejam verificadas. “Os jornalistas devem estar escravizados pela credibilidade e não pelo tempo”, conclui.

Surgiu depois do público a questão sobre as fake news e a influência que podem ter na forma como se pratica o jornalismo.

Miguel Soares continuou, dizendo que estas sempre existiram, não se propagavam é com a rapidez de agora e que podem ser uma oportunidade para fortalecer o jornalismo.

Com isto, Pedro Miguel Santos concretizou o debate, afirmando a sua crença de que nunca houve tanto jornalismo de qualidade como hoje em dia.

O Congresso Internacional de Ciberjornalismo decorreu nas passadas quinta e sexta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O primeiro dia terminou com a entrega dos Prémios de Ciberjornalismo, logo após o debate.

Rafaela Lobo