Jornalismo para dispositivos móveis e “clickbait”: VI Congresso Internacional do Ciberjornalismo

Na manhã do dia 23 de novembro, realizou-se no auditório 2 da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, uma Conferência e Sessões Paralelas com o propósito de expor e debater várias temáticas, abordadas por investigadores e especialistas formados na área da comunicação.

É importante destacar que estes debates são abordados no contexto da VI Conferência Internacional do Ciberjornalismo, onde há preocupações que vão desde as Fake News, Clickbait, Pós-Verdade e outros conceitos que se inter-relacionam.

“O IV JDM em 15 minutos”

A primeira conferência, “O IV JDM em 15 minutos”, foi apresentada por Fábio Giacomelli, da Universidade da Beira Interior.

O Jornalismo para Dispositivos Móveis (JDM), surgiu, segundo o professor doutor, em 2009. O projeto realizou-se na Serra da Estrela e juntou vários profissionais da academia e do mercado para debater o futuro das comunicações móveis.

Entre os objetivos do plano encontra-se o da perceção dos dispositivos móveis como plataforma de consumo de notícias, o qual foi sustentado com um estudo que permitiu descobrir as aplicações mais utilizadas pelos jovens.

Apostou-se numa transmissão ao vivo do JDM, com vista a promover interação, nas redes sociais do projeto.

O projeto conta com continuação e avanço para a 5ª Conferência, delineada para 2020.

No presente ano, a iniciativa já conta com a apresentação de 15 comunicações, 3 conferências e inúmeros contributos para a área académica.

“Ciberjornalismo e Clickbait”

Seguidamente, ocorreu às 10 horas, uma Conferência, dividida em 4 sessões, acerca do Clickbait.

Clickbait na Imprensa Portuguesa

A temática foi introduzida pelo profissional em comunicação, Pedro Moura.

O especialista na área, revelou a realização de um estudo aprofundado e de um projeto que é salientado como “ainda em construção” e baseado num trabalho já desenvolvido.

Este é um trabalho que reflete e trata de esclarecer a situação de títulos enganosos, cujo principal objetivo se incide na avaliação do nível de clickbait presente na Imprensa Portuguesa.

Pedro Moura, realça a importância de determinadas caraterísticas semânticas, designadamente a presença de frases incompletas e a representação da realidade com recurso ao exagero e com vista à intriga e “choque”.

Procedeu-se a toda uma análise de jornais, nomeadamente do jornal “A Bola”, “Record” e do “Correio da Manhã”, onde se reuniu um total de 156 notícias do total dos meios de comunicação analisados.

O método utilizado consistiu em escalas e critérios e devido à complexidade do próprio termo “clickbait” e de toda a estratégia para os órgãos de comunicação serem chamativos, muitas vezes em detrimento de veracidade e qualidade de conteúdo, o especialista abordou eficácia no sentido de uma análise qualitativa aliada a uma de caráter qualitativo.

Esta questão vai resultar em indicadores e soluções mais precisas, como modo de aperfeiçoamento do trabalho que ainda está em curso.

Clickbait na Imprensa Espanhola

Uma especialista da Universidade de Sevilha, procurou expor a temática do clickbait, nomeadamente, num jornal de referência espanhol: ESdiario

De acordo com a profissional, foi praticada a falácia no cibermeio espanhol de apelar mais às emoções, com transposição recorrente das barreiras da veracidade e imparcialidade.

Procedeu-se à análise de mais de 800 textos do jornal, de forma tanto quantitativa, como qualitativa e os resultados apontaram para um maior uso do clickbait na editoria política.

Segundo a professora, a prevalência de verbos que remetiam para cenários de crimes e violência, bem como apelo à vida pessoal e o uso de “adjetivos alarmantes” eram o mais visível nos casos em que a prática se verificava.

O clickbait foi ainda apontado como, nalguns casos, possível de “reciclar”, ou seja, ocorrer a publicação de conteúdos que já tinham sido publicados, no fundo, a existência de um re-publicação.

A profissional espanhola, acaba por concluir com a exposição da prevalência da política como alvo da temática abordada e da realidade da tentativa de audiência rentável, com recurso a métodos erróneos.

Clickbait– Jornalismo de Serviços

Um especialista em comunicação, da Universidade da Beira Interior abordou o clickbait, ao qual fez referência como prática de “caça clique”.

O profissional focou-se numa só notícia e num órgão, que posteriormente praticou clicbait com a mesma.

O estudo caso brasileiro do acidente de avião, no qual esteve implicada uma equipa de futebol, que se deslocava para o final da Copa Subamericana, foi explorado pelo Catraca Livre Website.

Este jornal procedeu à publicação de notícias relacionadas com pânico de avião, tendo acabado por publicar uma imagem com os próprios jogadores de futebol que sofreram o acidente.

O sítio web, que usou como técnicas a produção de conteúdos em forma de listas, perguntas e com recurso evidente ao sensacionalismo, acabou por perder audiência, cerca de 1 milhão de leitores em apenas uma semana.

Clickbait– “Entre o Jornalismo e o facto- distância fatal”

Tal como o próprio título do seu trabalho, a especialista Géssica Valentini, da Universidade Federal de Santa Catarina, procurou transmitir no seu estudo o caráter sensacionalista do clickbait.

A especialista focou-se na temática da possibilidade cada vez mais evidente da prática de um Jornalismo desumanizado.

No caso de uma notícia central, houve vários órgãos de comunicação que procederam a um “jornalismo distorcido”, que não averiguou os factos e não procurou informar-se bem.

O famoso caso de um jovem rapaz, fã da série Anatomia de Grey, foi visto a entrar com uma bata médica e detido à entrada do Hospital.

Os órgãos de comunicação social, apenas com esta informação de base, concluíram a loucura do rapaz e acrescentaram detalhes, que, de facto, não eram verídicos.

Este tipo de comportamento teve implicações, o próprio rapaz, alvo das notícias, acabou por se suicidar.

Géssica Valentini, termina com um apelo à prática de um Jornalismo transparente, em prole de uma sociedade onde coexista respeito pelos Direitos Humanos.

 

Luísa Felício