#6COBCIBER: “Os jornalistas estão, de facto, a dar voz a quem não tem voz?”

No segundo e último dia do VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo, Manuel Pinto, da Universidade do Minho, foi um dos oradores presentes e deu voz à conferência “As ameaças ao (ciber)jornalismo que vêm do próprio campo jornalístico”.

 

A primeira conferência de 23 de novembro do #COBCIBER6 trouxe à Faculdade de Letras, o professor catedrático Manuel Pinto, do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. Introduzido ao público por Ana Isabel Reis, membro da comissão organizadora, o orador agradece o convite e inicia a conferência questionando o papel do jornalismo nas cidades e o porquê da preocupação com as ameaças.

Apesar das múltiplas plataformas que surgiram nos últimos anos, o jornalismo tem vindo a desenvolver-se com cada vez mais público a querer intervir na área e, é atualmente um campo “assediado”. “Pensar diferente sobre a nossa profissão” é, segundo Manuel Pinto, uma necessidade face às ameaças ao jornalismo tradicional.

Numa sociedade que o orador designou como “crispada” dado o défice de qualidade de informação, é preciso rever o conceito de ameaça que tem uma “carga negativa forte” e “instiga atitudes de defesa”. O professor explicou que a situação implica uma reflexão crítica e questiona o porquê da “preocupação com as ameaças?” que, na sua opinião, consiste numa das perspetivas de interpretar o jornalismo atual.

Manuel Pinto colocou também em causa a postura dos jornalistas que “não tomam medidas para eliminar as ameaças”, apesar de as conhecerem. As ameaças ao ciberjornalismo são externas ou internas ao campo jornalístico, confirmou o conferencista. Reiterou ainda que é um “erro e uma visão bastante redutora” considerar que os problemas do jornalismo se resolvem a partir do próprio jornalismo, sendo esta uma “reflexão autorreferencial do jornalismo”.

Parafraseando Abel Salazar, Manuel Pinto adaptou uma das suas frases mais célebres e afirmou que “o jornalismo que só olha para o jornalismo, nem para o jornalismo olha”.

O orador defendeu que a situação atual deve provocar, nos profissionais, questões importantes: “Em que medida é que esta situação não suscita novos desafios, não os obriga a colocar de outra maneira?” e refletiu “porque é que apesar das ameaças serem cada vez mais claras, não há o desencadeamento direto de uma posição de preservação por parte dos jornalistas?”.

 

As ameaças e os obstáculos

Durante a conferência, Manuel Pinto referiu o “jornalismo cidadão” como uma das principais ameaças ao jornalismo.

Propôs ao público que repense o jornalismo: “Em que medida é que a agenda jornalística é um privilégio e uma prerrogativa apenas dos jornalistas? A construção da agenda ganharia ou perderia em ser partilhada com os públicos do próprio jornalismo?”.

Contudo, reforçou que o trabalho do jornalista não pode ser posto em causa – “buscar a verdade, incomodar o poder, verificar informação, cruzá-la e investigar” – uma vez que são tarefas que “por muito que se esforce, um blogger nunca poderá fazê-las como alguém que vive para esse trabalho”. Considerou assim, que não há ninguém capaz de fazer o trabalho do jornalista com a mesma competência de um profissional.

As redes sociais são, segundo o orador, um exemplo de plataformas que vieram “promover a multiplicação dos pólos de enunciação na sociedade”, porém admitiu que podem consistir num “perigo público porque põem em causa a existência de um discurso fundamental para um regime democrático, por ser um discurso que segue o código de natureza ético-deontológica que é uma garantia da qualidade da informação”.

O crescimento de plataformas autointituladas informativas cria um clima de desconfiança face à própria informação jornalística. Terminou o tópico, recorrendo a uma parábola, salientando a premência de “separar o trigo do joio”: saber distinguir o que é jornalismo do que não é jornalismo.

A preocupação com as audiências

Manuel Pinto abordou ainda o problema do afastamento entre o jornalismo e o público que leva a que o impacto do primeiro seja mais “reduzido ou mesmo contraproducente”.

O professor admitiu faltar entre os jornalistas uma “cultura de escuta” e questionou: “Será que o modo de fazer as perguntas não é uma forma de impôr respostas? Será que estão, de facto, a dar voz a quem não tem voz? Será que o que os jornalistas inscrevem na sua agenda de preocupações cobre o fundamental das dinâmicas sociais, das lutas sociais, das preocupações, das inovações e das necessidades de informação das coletividades, das comunidades?” Manuel Pinto considera que não, devido à “desconfiança que se se sente face à informação jornalística”. Reiterou que é necessário pensar nos públicos “não só como audiências, mas como comunidades vivas” escutando e ouvindo “as suas necessidades e inquietações”.

O jornalismo no contexto da mudança

O orador refletiu acerca da intervenção do público não ser “parte da solução, do lado dos jornalistas” e deixa a questão: “Em que moldes se poderá fazer um jornalismo mais participado?”.

Perto do final da conferência, referiu o livro “Os Elementos do Jornalismo”, de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, como uma prova da “velocidade estonteante” que caracteriza a evolução do jornalismo. Segundo o professor, o estudo tem sido alvo de atualizações constantes, sendo capaz de “captar um sinal dos tempos”. Reforça: “há indivíduos preocupados com a qualidade da informação e que lutam pela inovação.”.

A esperança e a fé no jornalismo

Manuel Pinto terminou a conferência assumindo que “ir resistindo” às ameaças é a solução e que “isso se faz em conjunto e não sozinhos”. Acrescentou ainda que “é uma questão de fé”.  Por último, lança uma reflexão ao público: “Estamos assediados, por todo o lado, por instrumentos de comunicação, mas ninguém se questiona se estamos a comunicar melhor”.

Após a conferência, o Congresso Internacional de Ciberjornalismo continuou, versando temas como a Investigação internacional em ciberjornalismo e contando com a presença de Nora Paul da Universidade de Minnesota, a encerrar o dia.

Margarida Magalhães