O anonimato na Internet: mais negativo que positivo?

Desde que foi criada que uma das particularidades mais louvadas da Internet é a possibilidade de anonimato, ou pseudonimato, que oferece aos seus utilizadores. Esta é uma das temáticas em debate no #6COBCIBER. 

A necessidade de expressar uma opinião, dar voz a um pensamento, é quase universal. Durante anos, o microfone foi dado apenas àqueles considerados dignos, como políticos e comentadores, que expressavam as suas ideias formal e amplamente para um público, que sabia exatamente quem disse o quê e atribuía um julgamento, quer negativo quer positivo, com base em tal.

Com a chegada da Internet, tal mudou drasticamente. A possibilidade de anonimato, ou pseudonimato, que esta rede global oferece aos seus utilizadores fez com que o João de Portugal ou a Ashley dos Estados Unidos se tornassem tão ou mais influentes que os políticos e comentadores de outrora.

Quem diz o João ou a Ashley, diz a ativista pelos direitos LGBT russa; ou a mãe mexicana, ilegal nos EUA, que num post anónimo, documenta os riscos que corre e os sacrifícios que faz pelo seu filho todos os dias, num post do reddit. Mas, regra geral, o que é arma do bem, pode ser também do mal.

Através da máscara do anonimato ou pseudonimato, websites como o Reddit, o 4chan e o Quora agrupam e promovem, direta ou indiretamente, o pior da Internet. Recentemente, um grupo de internet trolls – pessoas que provocam uma comunidade ou alguém em particular, propositadamente, através de piadas ou afirmações, para efeitos de normalização do discurso tangencial ou para o seu próprio divertimento – criou e distribuiu cartazes fomentadores da ideia de que pedófilos pertencem à comunidade LGBT, de maneira a denegrir a imagem do grupo.

Na rede social Twitter, várias pessoas reagiram com repulsa ao conteúdo do panfleto. No entanto, a jogada do movimento alt-right – que se opõe à comunidade LGBT – foi rapidamente desmascarada pelo website de fact-checking Snopes.

É também no Twitter – onde o anonimato é menos frequente, mas possível e utilizado – que a comunidade de gamers Gamergate constantemente ameaça as vidas de mulheres no mundo da tecnologia; ou onde multidões forçaram o editor do The New York Times Jonathan Weiss a abandonar a rede social, após um bombardeamento de comentários anti-semíticos, espoletado pelo lançamento do seu livro (((Semitism))), onde critica Donald Trump e os seus ideais.

Coisas que nunca se diriam na cara de alguém são facilmente digitadas e enviadas através de uma conta falsa. A percepção de que tais atos não trarão consequências, devido à maioria das vítimas não ter tempo e meios para desmascarar as pessoas por detrás dessas contas, faz com que elementos básicos da comunicação interpessoal sejam parcial ou totalmente esquecidos – a empatia, por exemplo. O facto de que na Internet se fala com avatars e/ou screen names leva ao esquecimento que, por detrás desses, estão pessoas reais. Tal verifica-se, especialmente, nas celebridades, como no caso da apresentadora do Saturday Night Live, Leslie Jones, acossada online por centenas de pessoas pelo seu aspeto físico.

Deveria, então, o anonimato na Internet ser totalmente abolido para evitar situações destas? Enquanto sociedade, deveríamos nós estabelecer normas de interação social online? Ou o sistema está perfeito atualmente?

São estas e outras questões que vão estar em debate no #6COBCIBER – VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo, dias 22 e 23 de novembro, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Adriana Pinto