Manipulação no Clique: Só vemos o que nos deixam ver

Atualmente, já adquirimos consciência de que nem tudo o lemos e vemos na internet pode ser considerado verdadeiro. O conceito de fake news já não é desconhecido de ninguém e a verificação de fontes e factos tornou-se algo que nós mesmo podemos efetuar através de pesquisas filtradas.

No entanto, nem sempre estamos cientes do processo de manipulação de informação que ocorre por detrás de plataformas que, em primeira instância, serão de confiança. Blogues, websites, fóruns, redes sociais. Todos podem ser canais abertos para a publicação de histórias falseadas e acontecimentos simulados que são divulgados com o discreto objetivo de promover a agenda de determinados grupos ideológicos ou de simplesmente gerar lucro rápido através de cliques e visualizações.

De campanhas políticas em que são usados bots para aumentar a popularidade de candidatos nas eleições, a mortes de celebridades que são desmentidas para gerar visitas a blogues. Os instrumentos e estratégias estão disponíveis a quem os souber fazer render.

Ryan Holiday, especialista em Marketing e colaborador do site da revista Forbes, explica em detalhe no seu livro “Trust Me, I’m Lying“, o quão fácil é para alguém chamar à atenção da audiência para uma narrativa intencionalmente falseada num panorama ciberjornalístico onde o que é importante noticiar começa a perder terreno em detrimento do que obtém o maior número possível de cliques.

Os ciberjornalistas são muitas vezes condicionados por esta economia da atenção. Tudo o que é publicado online tem de ser privilegiado e em primeira mão segundos ainda antes de ter acontecido sequer para constituir uma novidade num meio altamente concorrencial.

Ilustração de Jim Cooke, presente no livro “Media Manipulation and Disinformation Online”.

O imediatismo, associado a uma frenética economia da atenção, pode ser aproveitado por vários setores sociais que distorcem o enquadramento da realidade noticiosa para provocar reações e atitudes nos indivíduos em seu favor. Media Manipulation and Disinformation Online, escrito por Alice Marwick and Rebbeca Lewis, define com precisão que setores são esses e como operam em diferentes plataformas participativas.

O enviesamento de factos e o seu consumo pelos leitores vai levar à sua consequente desinformação, promovendo a criação de ideias e opiniões sobre perspetivas falseadas. Já não se trata de uma ameaça só ao ciberjornalismo e à confiança na sua qualidade, como também à vida cívica.

Este e outros temas pertinentes estarão em discussão no VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo, que decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 22 e 23 de Novembro.

Sara Passeira