Uma das linhas condutoras do aparecimento do jornalismo é a sua função de divulgação de ideias. Os primeiros periódicos foram postos ao serviço das monarquias, quer pelas informações veiculadas, quer pelo efeito da censura.  As gazetas, subsidiadas pela coroa, serviram este modelo e moldaram a opinião pública pensante, as elites. Outros tipos de jornais com outros objetivos foram surgindo, mas esta perspetiva de difusão de ideias, políticas ou outras continuou a ser dominante, mesmo depois do fim das monarquias absolutas. Na ascensão e afirmação do liberalismo político, os jornalistas foram militantes de causas e viam-se a si e aos jornais como instrumentos políticos. Aliás, foi neste contexto que o jornalismo foi definido com o 4º estado, no sentido de mais um poder que vigiava o que faziam os políticos no parlamento britânico. Contudo, o publicismo do século XIX não deixou de ser direcionado tendencialmente para as classes mais favorecidas ou pelo menos letradas.

A industrialização da imprensa e o triunfo da vida urbana e da sociedade de massas alterou este paradigma. Os jornais alteraram-se nos conteúdos e no discurso. Os factos, as notícias dos acontecimentos do quotidiano passaram a ser dominantes e a agradar a públicos mais amplos e com níveis de cultura muitos distintos. A linguagem simplificou-se, os relatos melodramáticos conquistaram audiências e a imagem veio ilustrar dramas, tragédias, acidentes. O jornalismo de elites não desapareceu, mas adaptou-se aos novos tempos e a factualidade como elemento integrador da notícia passou a ser o novo referencial informativo.

Contudo, a relação entre o facto e a objetividade como prática ética e profissional teria ainda um longo caminho a percorrer.

No sistema noticioso ocidental, o jornalismo serviria o modelo da propaganda em várias circunstâncias, sendo a I Guerra Mundial um exemplo do uso da imprensa na manipulação da opinião pública. Durante o século XX, o jornalismo ocidental viveu duas guerras mundiais, a ameaça dos sistemas censórios e teve ainda de distancia-se da publicidade. Neste processo evolutivo ganhou prestígio e configurou-se, nas democracias ocidentais, como o verdadeiro whatchdog da sociedade, denunciando o que estava errado e escondido. Este caminho garantiu a construção de um vínculo de confiança da opinião pública, que se habitou a ver os media como um dos pilares fundamentais da cidadania.

Nos tempos atuais, a expressão “crise do jornalismo” tem vindo a ser usada em diferentes circunstâncias e já de há algum tempo a esta parte. Inicialmente, esta crise decorreu dos processos de renovação tecnológica, entre outros fatores, com grande impacto sobre a economia de empresas de media. A crise levou ao fecho de jornais, rádios e TVs e o jornalismo ressentiu-se desta contração. Por outro lado, a revolução digital aumentou consideravelmente o volume de informação e a forma como se consomem as notícias, o que agravou ainda mais a economia das empresas.

Em tempos mais recentes, a crise passa também pelo abalar do elemento essencial da atividade noticiosa, a credibilidade.  Sendo a internet um campo aberto, onde circula todo o tipo de informação, gerou-se, por parte do público uma atitude de desconfiança generalizada em relação ao que é difundido ou, pelo contrário, uma crença cega em tudo em que é possível aceder através do browser. “Sites de notícias”, bloggers, redes sociais, tudo contribui para a instalação de um sistema informativo caótico e que descredibiliza a notícia na sua essência, a remissão para a factualidade. É essencial que o jornalismo recupere o crédito de tempos anteriores, independentemente das plataformas onde a notícia seja difundida. A validação da informação, da remissão para a fonte, o equilíbrio e a mediação têm de ser uma garantia de que os media noticiosos vão recuperar a função de whatchdogging a que nos habituaram, para salvaguarda das sociedades democráticas. O aparecimento de  vários projetos a nível mundial, para a implementação do fact-checking são passos decisivos nesse caminho. Recuperando o atual   slogan do The Washington Post, “democracy dies in darkness”.

Por Helena Lima                                                                                                          

Diretora de Curso de Mestrado em Ciências da Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto