O fogo foi demasiado falado durante este ano pelas piores razões, mas a que se deve este fenómeno no nosso país? Ouvimos António Salgueiro, Membro da Comissão Técnica Independente que procedeu à análise dos incêndios florestais de Pedrógão e de Góis, em junho deste ano.

RENASCENÇA

A resposta poderá estar num conjunto de fatores que António Salgueiro, engenheiro florestal, explica. Para além da influência do clima mediterrânico, ainda que não seja banhado pelo Mediterrâneo, Portugal sofre com uma particularidade “única do mundo”, em que “a estação mais quente do ano coincide com a estação mais seca do ano”, começa por dizer António Salgueiro, na TedxMatosinhos.

Aliado ainda à influência atlântica, “fomos habituando a nossa natureza, e ela a nós próprios, a ter fogo e a recuperar com fogo. Temos um ecossistema que está extremamente adaptado ao fogo. Aquilo que precisamos hoje é de continuar a evoluir com ele, mas numa perspetiva diferente. E não temos evoluindo. Temos, talvez, regredido”, explica o Membro da Comissão Técnica Independente que procedeu à análise dos incêndios florestais de Pedrógão e de Góis, em junho deste ano.

Para António Salgueiro “continuamos a usar o fogo indevida e inconscientemente” e muito por culpa da legislação que “dirigiu utilizações racionais do fogo para utilizações irracionais.” Atualmente, Portugal é um dos países do mundo onde, por quilómetro quadrado, há uma grande densidade de ignições, isto é, aquilo que designamos por “fogos postos”.

Mas, afinal, porque tivemos tantos fogos este ano e com tantas mortes? “Por situações particulares da meteorologia, pelo ano que tínhamos com esta seca acumulada e por coisas que já vem de muitos anos”, de que é exemplo a “homogeneização dos territórios rurais.” Com menos pessoas a viver nos territórios interiores, onde há cada vez menos agricultura e pastorícia nessas áreas, a paisagem, explica António, “vai ficando homogeneizada”.

Os incêndios de 2003 e 2005 também serviram para uniformizar o território. “Temos territórios muito vastos em que o fogo não tem alterações de comportamento. Tudo isto associado a condições climatéricas extremas fez com que tivéssemos fogos acima daquilo que estávamos habituados a ter”, sublinha.

António Salgueiro afirma o carácter agressivo da mensagem que deveria ter sido passada. “Este ano devíamos ter sido extremamente agressivos relativamente à mensagem. Não podíamos ter dito que ia chover e que ia acabar o verão e, simultaneamente, que íamos ter influência do Ofélia, de ventos que iam passar pelo Norte de África”, adverte o também docente da cadeira de Planeamento e Proteção Florestal, na Universidade Lusófona do Porto.

O engenheiro florestal revela-se ainda contra o sistema de voluntariado de Proteção Civil. “Isto não bate certo. Proteção Civil e voluntariado. Tenhamos voluntariado, mas quem coordena, quem manda, tem de saber aquilo que está a fazer. Quem coordena, tem de ser um especialista do mais alto grau, tem de saber perfeitamente o que é um comportamento de fogo e o que pode esperar desse comportamento”, finaliza.