Nádia Piazza é o rosto das famílias das vítimas de Pedrógão Grande, depois de ter perdido nove elementos da família nos incêndios, incluindo o filho de cinco anos, o pai do filho e a “mãe portuguesa”. Agora, está pronta para dar o próximo passo com um projeto chamado “Aldeias Resilientes”.

MARIA JOÃO GALA / GLOBAL IMAGENS

Já deu muitos próximos passos na vida, mas nunca esperou ter que dar este. Nádia Piazza fundou a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande com outras pessoas que também tinham essa vontade de “ter uma versão oficial, não a versão das instituições, mas a nossa versão, que é a versão de quem estava no território, de quem viveu ou de quem amava o seu”, explica.

A cidadã luso-ítalo-brasileira adianta que, desde o primeiro momento, todas as famílias participaram ativamente nas investigações. “Isso muito pouca gente sabe. É de que nós participamos nas investigações, desde o primeiro dia com todas as instituições. Tudo o que está saindo hoje, nós já sabíamos. Fomos nós que dissemos aquilo mesmo”, confidencia.

Certo é que, para além de ajudar “a apurar a verdade” sobre o que aconteceu, a Associação desenvolveu um projeto-piloto chamado “Aldeias Resilientes” que conta com a colaboração da Associação de Proteção e Socorro (APROSOC) e a WIT-Software.

Ao todo, vinte e cinco aldeias dos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, integram o projeto. “Vamos constituir equipas, à maneira norte-americana, responsáveis e formadas” com o objetivo de “chamar para si a responsabilidade de autoproteção, conhecer o seu território à volta, fazer a limpeza à volta das aldeias, equipar-se. Vamos melhor a comunicação intra-aldeias”, adianta.

Com sede numa escola primária no “olho do furacão” onde será o posto de comando e com um deadline estipulada até junho do próximo ano, o objetivo do projeto-piloto é não entregar “toda a nossa integridade física a entidades públicas”, mas sim propor uma tomada de consciência de que temos “que fazer algo preventivo e a longo prazo e esse é o legado que queremos deixar.”

A jurista, que perdeu o filho, o pai do filho, “a mãe portuguesa” e mais seis elementos da família nos incêndios, adiantou que, aquando da tragédia, tinha duas opções: “ou fechava-me, enclausurava-me, começava um luto traumático, imediatamente, ou pura e simplesmente tentava perceber o que é que se passou. Juntar as pessoas que viveram o mesmo que eu vivi, apurarmos a justiça ou a injustiça com que essas pessoas tinham enfrentado. Fazer alguma coisa diferente”, disse.

Diz que foi a partir daí que “nasceu uma nova mulher”, até porque quando vivemos uma situação de limite, como a que viveu, “há uma coisa que acontece. Nós perdemos o medo de falar e isso não significa perder o respeito. Quando nós perdemos o medo, nós somos livres.”