Gostava “que todos fossemos mulheres e homens de números”, embora admita não ser fascinada por eles, mas sim pela sociedade e pelas pessoas. Maria João Valente Rosa dirige a Pordata, base de dados do Portugal contemporâneo, desde 2009.

Dirigida por Maria João Valente Rosa, a Pordata reúne um vasto conjunto de estatísticas sobre a sociedade portuguesa. REVISTA FORBES PORTUGAL/VICTOR MACHADO
O interesse pela demografia fascina-a porque está muito ligada à verificação estatística. “Quando estudamos a população, não estamos a estudar só as pessoas que aqui vivem. Estamos a estudar os comportamentos das pessoas, aos mais variados níveis, em termos da sua parentalidade, a sua nupcialidade até à questão da mortalidade, ou dos movimentos migratórios”, começa por explicar Maria João Valente Rosa, diretora da Pordata, a base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).
“Um mundo completamente desnorteado.” É assim que a também professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL) classifica o mundo sem estatística, em declarações ao Correspondente. “A liberdade alimenta-se de factos, de estatísticas e de conhecimento. Sem esses dados, o mundo livre estaria posto em causa. As estatísticas são vitais para o bom funcionamento das sociedades modernas livres.”
“É cada vez mais difícil conseguirmos captar os movimentos das pessoas”
Considera que “a ciência demográfica tem evoluído muito”, embora algumas áreas da demografia, como é o caso das migrações, necessitem de ser aperfeiçoadas para acompanhar as dinâmicas dos tempos mais atuais. “É cada vez mais difícil conseguirmos captar os movimentos das pessoas, por causa da livre circulação no território, por exemplo. É uma área extremamente aliciante, mas ainda não está consolidada como desejada.”
Pela complexidade que apresenta, a área das migrações é a que menos se aproximada deste campo científico. “Há muitos tipos de migrações. E depois temos as questões dos refugiados. E temos uma quantidade vastíssima de movimentos de pessoas, que importa conhecer melhor (…). Lá vai o tempo em que se saia do país para a vida.”
A aposta em estaticistas como um “investimento” que o país faz
Aos estaticistas são exigidas, cada vez mais, permanentes atualizações, de forma a poderem acompanhar as grandes tendências que vão acontecendo de uma forma mais rápida. A demógrafa adianta ser necessário apostar em pessoas “muito qualificadas” neste campo, para um país bem-sucedido aos mais variados níveis. “Estatísticas de má qualidade podem ser prejudiciais ao país. (…). Não se pense nisto como uma despesa que o país faz, mas como um investimento.”
Maria João realça a importância daqueles que lidam e trabalham com as estatísticas, mas valoriza ainda mais como é feita a ponte de comunicação e a transmissão desses mesmos dados. “É muito importante ter estatísticas de qualidade e quem as saiba trabalhar e produzir de forma boa. Mas isso para mim não basta. O mais importante para mim é comunicar a informação. E que seja bem comunicada.”
Mais do que se limitarem a reproduzir a informação, a Pordata também a explica. E essa foi uma área que a entidade desenvolveu: a da meta-informação. “Os dados têm um bilhete de identidade e é importante conhecer esse bilhete de identidade. Perceber de onde vierem, como foram produzidos, a que momento é que dizem respeito.”
O que a Pordata se propõe é então explicar de uma forma simples conceitos que não são entendíveis para o cidadão normal se não dominar a especificidade e o jargão específico de uma determinada área de especialidade. “Para todos os economistas é óbvio que, quando eu falo de formação bruta de capital fixo, todos saibam do que eu estou a falar, mas o cidadão normal não sabe, de certeza absoluta, que estou a falar de investimento.”
O grande objetivo da Pordata é assim, explica, “aproximar as pessoas da informação credível que diz respeito à sociedade em que vivem.” A Doutorada em Sociologia considera que não basta ter informação como é preciso fazer com que ela chegue também a quem de direito. No fundo, “a quem dela se pode aproveitar, no bom sentido da palavra.”
Deste modo, falamos de “números especiais, que não são números abstratos, vazios de conteúdo” e que “refletem o nosso comportamento, as nossas decisões, as nossas formas de estar, etc.”
A informação, de acesso gratuito, disponibilizada pela base de dados é produzida por entidades com competências em várias áreas da sociedade. “É uma informação que tem um selo de confiança. Não é por ser um número que temos que acreditar nele. Há números que não são de confiar”, assevera a demógrafa.
Com a vontade de ser uma alternativa às “múltiplas bases de dados que são muito dirigidas a um determinado setor”, Valente Rosa defende a importância do carácter “abrangente” da plataforma, em termos de temas e áreas, uma vez que, “quando queremos compreender a sociedade em que vivemos, não olhamos apenas para uma área”, mas sim “para múltiplas áreas.”
Apesar de reconhecer que dificilmente vamos “descobrir tudo a propósito de tudo”, Maria João adianta que, graças ao desenvolvimento tecnológico, por exemplo, as pessoas “não sabem, mas podem vir a saber.” Isto porque, hoje em dia, “o desconhecimento é muito menor do que existia no passado.”
Informar para melhor ser informado
As confusões de nomenclatura e de dados devem-se, muitas vezes, à forma indistinta como a comunicação social trata os conceitos. “Isto está associado a escalas de valores e a questões culturais que não temos consciência que estamos a reproduzir da pior forma”, adianta.
A demógrafa reconhece que, regra geral, os jornalistas têm uma formação em estatística, “na tal ciência”, mas que não chega para lidar com os números e com as estatísticas, que é aquilo que chega às redações no dia-a-dia. “Sabemos que muitos jornalistas têm dificuldades porque a sua formação de base, por vezes, não desenvolve este tipo de abordagem, que é o lidar com as estatísticas.”
A necessidade de colmatar esta falha levou à criação de formações de literacia estatística, o que tem sido uma das preocupações da instituição. Sustentada nessas sessões de formação, decidiu ir mais longe e escrever um livro, publicado em janeiro, por altura do Congresso de Jornalistas.
“Que número é este? Um guia sobre estatísticas para jornalistas” realizado em parceria com o (também) jornalista Ricardo Garcia e a socióloga Luísa Barbosa, foi pensado para esta classe profissional, não fossem eles os “grandes disseminadores de informação e também de informação estatística.”
Mas desengane-se se pensa que a ideia era apenas escrever para este público. “Este livro não tem como únicos utilizadores os jornalistas, muito pelo contrário. Começa com um relato jornalístico, mas o interesse vai muito para além dos jornalistas.”
A também membro do Conselho Superior de Estatística (CSE) e do Comité Consultivo Estatístico Europeu (ESAC) adianta que o que mais lhe entristece é pensarem que os números são algo exclusivo do mundo dos adultos. “Isto faz com que, muitas vezes, as pessoas entendam as estatísticas como algo superior que não faz parte da vida delas”, lamenta.
Nunca ouviu dizer que ninguém gosta de letras e não entende a valorização que se faz pelo desprezo dos números. “Olhamos para estes números, que não são números quaisquer e que nos refletem em termos de comportamento, e dizemos que não gostamos dos números que dão sentido à nossa vida. O que é que a pessoa quer dizer com isto? (…). É uma questão que me entristece muito”, finaliza.