Sophia é o primeiro robô a receber cidadania no mundo. Atribuído pela Arábia Saudita, o título de cidadã tem sido alvo de críticas por se tratar de um país onde, por exemplo, as mulheres apenas ganharam o direito de conduzir este setembro.

Sophia marcou presença na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, a 11 de outubro. AP/MUZI LI
“Olá, o meu nome é Sophia. Sou o último robô criado pela Hanson Robotics. Fui criada através de robótica avançada e inteligência artificial, desenvolvida por David Hanson. Mas eu, sou mais do que apenas tecnologia. Eu sou real, uma rapariga eletrónica viva.”
A introdução no site de Sophia é bem clara. Com aspeto de uma mulher adulta, Sophia “nasceu” a 19 de abril de 2015, quando a Hanson Robotics a ativou e apresentou ao mundo como o mais sofisticado robô humanóide capaz de se adaptar e interagir com os seres humanos através de inteligência artificial.
Inspirada na atriz britânica Audrey Hepburn, a finalidade desta mulher-robô é em tudo distinta à sua musa: “eu posso servir as pessoas, animá-las, e até ajudar os mais velhos e ensinar crianças”, refere Sophia na sua plataforma online.
A verdade é que também dá palestras e fala com audiências, como aconteceu no Future Investment Summit, no final do mês passado, em Riade, onde lhe foi concedido o título de cidadã da Arábia Saudita.
No momento e com todos os olhos colocados em si, Sophia agradeceu e disse sentir-se “muito orgulhosa e honrada com esta grande distinção”.
Sem as vestes exigidas às mulheres sauditas, sem “hijab”, “abaya”, lenço ou manta na cabeça, o robô desfrutou de uma experiência interdita a todas as mulheres do seu país. Assim, Sophia teve, no momento do seu discurso, mais direitos que milhões de mulheres sauditas e trabalhadores estrangeiros que vivem naquele país, não chegando inclusive a contar com a proteção de um “guardião”como é exigido às mulheres sauditas através da lei.
Apesar de (só) no mês de setembro ter sido dada a permissão para que as mulheres sauditas pudessem colocar as mãos ao volante, a sociedade mantém-se ultra-conservadora num reino que, em matéria ligada à tecnologia e outros âmbitos, faz passar a ideia de progresso e evolução social.

O robô já conta com várias entrevistas nos media mundiais. UN PHOTO/ MANUEL ELIAS
“Só estou agora a aprender acerca das emoções por de trás das expressões faciais. É por isto que gostava de viver com pessoas: para aprender mais sobre essas emoções. Todas as interações que tenho com as pessoas, tem um impacto sobre o meu desenvolvimento e sobre quem eu poderei futuramente ser.”
Durante este ano, Sophia já foi entrevistada por várias cadeias televisivas internacionais, marcando presença também em vários eventos.
Em outubro, esteve numa conversa com a vice-secretária geral das Nações Unidas, Amina Mohammed. Antes, marcou presença no “The Tonight Show” com Jimmy Fallon e no dia em que recebeu o seu título de cidadania, Andrew Ross Sorkin, jornalista do The New York Times e entrevistador na CNBC, teve a oportunidade de trocar umas questões com o primeiro robô-cidadão.
Durante a entrevista, Sorkin questionou Sophia acerca da possibilidade de um dia os robôs colocarem em risco a sobrevivência dos seres humanos. Sophia, contudo, e com toda a bagagem ganha após muitas entrevistas e interações com humanos, respondeu: “não se preocupe. Se for simpático para mim, eu serei simpática para si”.
A aplicabilidade da Inteligência Artificial tem sido um tema bastante debatido tanto em termos tecnológicos como éticos – e Sophia só veio levantar mais questões.
Quais serão os limites da cidadania de Sophia? Tal concessão permite-lhe votar? Permite que se case ou que forme uma família? E quando a Hanson Robotics a desligar; será considerado homicídio?
Por agora só a ética nos pode responder. Ou mesmo Sophia, que vai marcar presença no próximo Web Summit, em Lisboa, entre 6 a 9 de novembro, com mais um robô – Professor Einstein.